O Reino Unido iniciou uma nova etapa política nesta segunda-feira (20) com a chegada de Andy Burnham ao cargo de primeiro-ministro. Ao assumir o governo, o líder trabalhista colocou entre suas prioridades o enfrentamento da crise do custo de vida, a retomada do crescimento econômico e uma ampla descentralização administrativa, com maior poder de decisão para governos locais.
A proposta de Burnham busca reduzir a concentração de decisões em Londres e ampliar a autonomia das administrações regionais para definir estratégias de desenvolvimento econômico. A intenção é permitir que cidades e regiões tenham maior influência sobre investimentos, qualificação profissional, infraestrutura e outras políticas voltadas ao crescimento.
O novo premiê também anunciou a elaboração de um plano com duração de dez anos para reduzir os custos de serviços considerados essenciais, como água, energia, transporte e habitação. A estratégia prevê maior participação do poder público na gestão desses setores, por meio de regulamentação mais rígida e da ampliação de parcerias entre governo e empresas.
Apesar das promessas, Burnham assume o comando do país diante de um cenário econômico desafiador. A economia britânica enfrenta anos de crescimento reduzido, inflação persistente, elevada dívida pública e baixa produtividade, fatores que continuam limitando a capacidade de expansão do país.
Especialistas apontam que a desaceleração econômica se intensificou após a crise financeira de 2008. Desde então, o avanço do Produto Interno Bruto per capita tem sido modesto em comparação ao período anterior, refletindo dificuldades estruturais que afetam investimentos, consumo e geração de renda.
Outro desafio destacado por economistas é a necessidade de financiar demandas crescentes, como a transição para fontes de energia mais limpas e o envelhecimento da população. Segundo analistas, uma economia mais dinâmica facilitaria a implementação dessas políticas públicas.
Burnham, no entanto, terá de conciliar seus projetos com compromissos fiscais assumidos pelo Partido Trabalhista. O novo governo pretende manter regras rígidas para controle da dívida pública e dos gastos, além de preservar a promessa de não elevar os três principais impostos cobrados no país, entre eles o imposto de renda.
Antes de chegar ao cargo de primeiro-ministro, Burnham comandou a prefeitura da Grande Manchester durante quase dez anos. Nesse período, ganhou destaque ao defender a descentralização de competências e ao ampliar a atuação regional em áreas como transporte, habitação, segurança pública e capacitação profissional.
A experiência de Manchester é apontada como uma referência para o restante do Reino Unido. Após décadas de dificuldades provocadas pela desindustrialização, a cidade passou por um processo de revitalização, impulsionado por investimentos, aumento da produtividade e fortalecimento da economia local. O novo governo pretende utilizar esse modelo como base para estimular o desenvolvimento em outras regiões.
Estudos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que a redução das diferenças de produtividade entre as regiões britânicas pode contribuir para elevar o crescimento nacional. A entidade também recomenda políticas locais voltadas à geração de empregos para jovens e à melhoria dos sistemas de transporte, considerados fatores importantes para diminuir as desigualdades regionais.
Mesmo com esse diagnóstico, a implementação das mudanças deverá enfrentar obstáculos. A estrutura administrativa britânica reúne diferentes níveis de governos locais, com competências variadas e responsabilidades distribuídas de forma desigual, o que pode dificultar a ampliação da autonomia defendida pelo novo premiê.
Além da descentralização, Burnham pretende fortalecer o controle público sobre serviços essenciais e acelerar medidas para reduzir o impacto do custo de vida sobre a população. Entretanto, diante das limitações fiscais, especialistas avaliam que essas iniciativas deverão ocorrer principalmente por meio de maior regulação dos setores e de acordos com empresas, em vez de um amplo processo de nacionalização.






