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Entidades defendem suspensão de transmissões ao vivo no Discord para proteger crianças e adolescentes

Manifesto assinado por 67 organizações considera medida da ANPD proporcional aos riscos identificados e cobra da plataforma mecanismos capazes de prevenir crimes no ambiente digital

Rodrigo SouzaPorRodrigo Souza
18 de agosto de 2026
em Direitos Humanos
Entidades Defendem Suspensão De Transmissões Ao Vivo No Discord Para Proteger Crianças E Adolescentes - Expresso Carioca

© Valter Campanato/Agência Brasil

Um grupo formado por 67 entidades da sociedade civil divulgou nesta terça-feira (18) uma carta em apoio à decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) de suspender temporariamente a função de transmissões ao vivo do Discord no Brasil. As organizações consideram que a medida está de acordo com as regras estabelecidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital) e representa uma resposta proporcional aos riscos identificados na plataforma.

A suspensão começou a ser aplicada pelo Discord na segunda-feira (17), depois de determinação da ANPD. A restrição atinge especificamente o recurso de transmissão ao vivo, enquanto outras ferramentas da plataforma continuam disponíveis para os usuários brasileiros.

No documento, as entidades argumentam que a decisão do órgão regulador não representa o bloqueio do Discord no país. A medida atinge uma funcionalidade específica e estabelece condições para que ela volte a ser disponibilizada.

Segundo o manifesto, a retomada das transmissões deverá ocorrer somente depois que a empresa demonstrar que possui mecanismos suficientes para identificar situações de risco, detectar crimes e adotar medidas de proteção adequadas.

Medida foi tomada após casos envolvendo menores

A atuação da ANPD ganhou força após episódios envolvendo violência e coação de crianças e adolescentes dentro da plataforma. Entre os casos investigados está o de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, que morreu por suicídio em 22 de julho.

O episódio provocou uma série de investigações sobre o ambiente oferecido pelo Discord e sobre a capacidade dos mecanismos de moderação utilizados pela empresa para identificar situações de risco.

A preocupação das autoridades não se limita às transmissões em vídeo. Investigações conduzidas por forças de segurança apontam para a utilização de plataformas digitais, incluindo Discord e Telegram, em atividades criminosas envolvendo menores de idade.

De acordo com informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública citadas pela Agência Brasil, entre as práticas investigadas estão o recrutamento de crianças e adolescentes para atos de crueldade contra animais, além de conteúdos relacionados à automutilação e ao incentivo ao suicídio.

Entidades rejeitam ideia de bloqueio da plataforma

As organizações que assinaram a carta destacam que a determinação da ANPD não impede o funcionamento geral do Discord.

A troca de mensagens continua disponível, assim como outras ferramentas e integrações utilizadas por usuários e empresas. O que foi interrompido é a possibilidade de realizar transmissões ao vivo no serviço.

Para as entidades, essa característica é importante para demonstrar que a intervenção do órgão regulador está direcionada a um risco específico identificado durante as investigações.

O manifesto também critica a transformação do debate em uma disputa política. Para as organizações, a decisão precisa ser analisada dentro de um conjunto mais amplo de ações destinadas a proteger crianças e adolescentes no ambiente digital.

Responsabilidade preventiva das plataformas

Um dos principais pontos levantados na carta é a interpretação do dever de prevenção estabelecido pelo ECA Digital.

As entidades sustentam que as plataformas digitais precisam demonstrar continuamente que possuem condições para reduzir riscos conhecidos. Dessa forma, a responsabilidade pela segurança não deve depender apenas da reação a um episódio depois que ele acontece.

No caso do recurso de transmissão ao vivo, o entendimento defendido pelas organizações é que cabe ao Discord apresentar evidências de que consegue identificar situações perigosas e agir para interrompê-las antes que produzam consequências graves.

A carta também menciona uma determinação anterior da própria ANPD. Plataformas que tenham mais de 1 milhão de usuários crianças ou adolescentes no Brasil deverão apresentar, até 17 de setembro, relatórios semestrais contendo informações sobre denúncias recebidas, providências adotadas pela moderação e avaliações de riscos.

A exigência faz parte de uma estratégia de acompanhamento permanente das plataformas que possuem grande presença entre o público infantojuvenil.

Investigações ocorrem em diferentes estados

As entidades também destacam que a decisão envolvendo o Discord não ocorreu de maneira isolada.

Operações conduzidas por polícias civis de pelo menos oito estados investigam possíveis crimes praticados por meio do Discord e do Telegram. As apurações envolvem diferentes formas de violência e exploração de crianças e adolescentes no ambiente virtual.

Na avaliação das organizações, a atuação conjunta entre autoridades de proteção de dados, órgãos de segurança e instituições voltadas à defesa dos direitos de crianças e adolescentes demonstra a dimensão do problema.

O manifesto defende que a resposta às ameaças digitais precisa combinar prevenção, mecanismos de segurança, fiscalização e responsabilização das empresas que administram essas plataformas.

Quem assina o manifesto

Entre as organizações que subscrevem a carta estão a Coalizão Direitos na Rede, o Instituto Alana, o Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, o Conselho Federal de Psicologia, a SaferNet Brasil, o Instituto Sou da Paz e a Associação de Pesquisadores e Formadores da Área de Criança e do Adolescente (NECA).

As entidades afirmam que a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital precisa considerar os riscos existentes nas próprias plataformas, sem depender exclusivamente de mecanismos de controle baseados na idade dos usuários.

O grupo também defende que empresas de tecnologia sejam cobradas pela adoção de medidas concretas de segurança e pela capacidade de demonstrar que essas ferramentas funcionam na prática.

Discord terá de demonstrar capacidade de prevenção

A suspensão da função de transmissões ao vivo permanece condicionada ao cumprimento das exigências estabelecidas pela ANPD.

Com o apoio manifestado pelas 67 entidades, a discussão passa a envolver não apenas a continuidade do recurso de lives, mas também os critérios utilizados pelas plataformas para identificar e interromper situações de violência contra menores.

Para as organizações signatárias, a aplicação do ECA Digital deve priorizar a prevenção de danos e a criação de mecanismos capazes de reduzir riscos antes que novas violações ocorram.

A carta encerra defendendo que o Discord demonstre, por meio de medidas efetivas, que consegue oferecer proteção adequada aos usuários mais jovens. As entidades também reforçam a atribuição da ANPD de exigir salvaguardas concretas das plataformas digitais quando houver riscos à segurança e aos direitos de crianças e adolescentes.

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Tags: ANPDDiscordECA DigitalExpresso CariocaNotícias
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