O economista André Lara Resende, um dos responsáveis pela elaboração do Plano Real, voltou ao centro do debate econômico ao questionar a política de juros adotada pelo Banco Central (BC). Para ele, a manutenção da taxa básica em patamar elevado contribui diretamente para o desequilíbrio das contas públicas e agrava o crescimento da dívida brasileira.
Em artigo publicado originalmente em setembro, o ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) contesta a interpretação de que o aumento das despesas públicas seja o principal responsável pela deterioração fiscal. Na avaliação do economista, o custo dos juros pagos pelo governo precisa ocupar posição central nas discussões sobre o endividamento do país.
“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater.”
A crítica ganhou repercussão em meio às discussões sobre o crescimento da dívida pública e às cobranças de integrantes do mercado financeiro por cortes nas despesas da União.

Juros consomem mais de R$ 1,1 trilhão em 12 meses
A dívida pública brasileira passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2022, para aproximadamente 82,9% em agosto de 2026. O avanço tem alimentado o debate sobre as medidas necessárias para estabilizar as contas do país.
Segundo Lara Resende, a questão central está no custo do financiamento da dívida. Nos 12 meses considerados no levantamento citado pela Agência Brasil, os pagamentos de juros superaram R$ 1,1 trilhão, o equivalente a cerca de 8,9% do PIB.
O economista argumenta que, quando os gastos com os juros são retirados do cálculo, as contas públicas ficam próximas do equilíbrio. Ele reconhece, porém, que existem problemas na composição das despesas governamentais, mencionando, entre outros exemplos, emendas parlamentares, benefícios salariais no Judiciário e incentivos tributários.
“Quando se exclui o serviço da dívida, as contas estão praticamente equilibradas. A grande despesa do Estado é com os juros sobre a dívida”, escreveu.
Na avaliação do especialista, concentrar o ajuste fiscal exclusivamente na redução dos gastos primários, que incluem despesas com serviços públicos e políticas sociais, não resolve a origem do problema. Ele sustenta que a redução dos juros seria necessária para interromper o crescimento da dívida em relação ao tamanho da economia.

Banco Central defende juros elevados para controlar a inflação
A interpretação de Lara Resende contrasta com a justificativa apresentada pelo Banco Central para manter a taxa Selic em patamar elevado. A autoridade monetária considera os juros um instrumento importante para conter a inflação, pois o encarecimento do crédito tende a reduzir o consumo e a atividade econômica, diminuindo as pressões sobre os preços.
Entre os fatores apontados pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para justificar uma política monetária restritiva estão o aquecimento da economia e do mercado de trabalho, além das incertezas relacionadas à trajetória das contas públicas.
O BC também argumenta que déficits primários, registrados quando as despesas do governo superam as receitas antes do pagamento dos juros da dívida, podem aumentar as pressões inflacionárias.
Lara Resende questiona os fundamentos teóricos dessa estratégia. Para ele, a relação entre juros, atividade econômica, desemprego e inflação não funciona de maneira tão direta quanto pressupõem os modelos econômicos convencionais.
O economista admite que uma redução dos juros pode provocar uma elevação inicial da inflação, mas considera que esse efeito seria temporário. Sua proposta é alterar a condução das políticas monetária e fiscal para buscar uma trajetória mais sustentável no longo prazo.
Proposta prevê metas conjuntas para juros e contas públicas
Como alternativa à estratégia atual, Lara Resende defende a criação de um novo regime fiscal e monetário, com metas definidas conjuntamente para a inflação, os juros e as contas públicas.
O planejamento, segundo a proposta, deveria abranger um período de quatro a cinco anos. A intenção seria dar maior previsibilidade à política econômica e estabelecer parâmetros que considerem, de forma coordenada, o comportamento dos preços, o crescimento da economia e a evolução da dívida.
“As metas de inflação seriam anunciadas em conjunto com metas para a taxa básica de juros. O BC se comprometeria a manter a taxa básica num intervalo entre a meta de inflação, 3%, e taxa de crescimento nominal potencial”, explicou.
O economista também propõe que o Banco Central atue no mercado de câmbio para conter uma eventual desvalorização acentuada do real, caso a redução dos juros pressione a cotação da moeda brasileira.
“Com reservas internacionais de mais de US$ 350 bilhões, o BC tem munição de sobra para isso”, escreveu.
A proposta representa uma mudança significativa em relação à atual condução da política monetária, ao defender maior coordenação entre as decisões sobre juros e as metas fiscais do governo.
Debate sobre o endividamento continua
A discussão sobre como conter o crescimento da dívida pública envolve diferentes interpretações sobre as causas do desequilíbrio fiscal e os caminhos para enfrentá-lo.
Enquanto parte do mercado financeiro defende a redução das despesas públicas para melhorar o resultado primário, Lara Resende sustenta que o custo dos juros é um dos principais obstáculos à estabilização do endividamento. Para o economista, cortes de gastos, isoladamente, não seriam suficientes para interromper a trajetória da dívida sem uma mudança na taxa de juros.
O debate também envolve os efeitos das decisões econômicas sobre o crescimento, o crédito, o investimento e a capacidade do Estado de financiar políticas públicas.
A proposta de Lara Resende recoloca em discussão o papel do Banco Central e os limites da estratégia de combate à inflação baseada em juros elevados. A implementação de um modelo alternativo, entretanto, dependeria de mudanças na condução da política econômica e de uma avaliação dos possíveis impactos sobre os preços, o câmbio e as contas públicas.







