A Cidade do Rock deixou os grandes shows em segundo plano nesta quarta-feira (9) para se transformar em uma sala de aula a céu aberto. A 10ª edição do Rock in Rio Academy reuniu empresários, executivos, gestores e profissionais de diferentes áreas em uma jornada dedicada a discutir liderança, inovação, cultura, sustentabilidade e tomada de decisões em ambientes de alta complexidade.
Com o tema “Orquestrando Sistemas Vivos Sob Pressão”, o encontro utilizou a própria operação do Rock in Rio como estudo de caso. A proposta foi aproximar os participantes dos desafios enfrentados na prática por uma organização que precisa coordenar pessoas, tecnologia, parceiros, marcas, artistas, público e operação simultaneamente.
O formato segue a metodologia Live Case Study, que transforma situações reais dos bastidores em conteúdo aplicado. A programação combinou painéis, conversas estratégicas, experiências e visitas guiadas pela Cidade do Rock. A edição de 2026 foi estruturada em uma imersão de 12 horas, com conteúdos voltados a profissionais que atuam em ambientes de pressão e precisam tomar decisões envolvendo múltiplos interesses.

Colaboração como ponto de partida
A abertura ficou a cargo de Agatha Arêas, fundadora da Provoke e criadora do Rock in Rio Academy, no painel “Colaboração com maestria”.
A executiva destacou a importância de transformar a experiência acumulada pelo festival em conhecimento que possa ser aplicado em outros setores. Para ela, a Cidade do Rock funciona durante o Academy como um grande ambiente de aprendizagem, aproximando participantes dos executivos responsáveis pela operação.
“Esta 10ª edição do Rock in Rio Academy reafirmou a força de transformar conhecimento em experiência e experiência em conexão. A Cidade do Rock virou uma imensa sala de aula, aproximando participantes, executivos da Rock World e desafios reais de uma operação dessa complexidade”, afirmou Agatha.
Desde 2015, o Academy utiliza a operação do festival como laboratório para discutir gestão e liderança. Em 2026, a proposta ganhou um formato ainda mais voltado à participação dos alunos, com maior espaço para painéis e interação com o público.
Novos modelos para liderar
A discussão sobre liderança ficou por conta de Reynaldo Gama, CEO da Ânima Empresas, que apresentou o painel “A liderança da atualidade”.
O executivo abordou conceitos como liderança relacional, humana e criativa, além da necessidade de desenvolver gestores preparados para situações que não possuem respostas prontas.
“A gente está vivendo uma era do ineditismo e não tem especialista em coisa inédita”, afirmou Gama. Segundo ele, a combinação entre educação, cultura e experiência ajuda a ampliar o repertório de quem precisa liderar em cenários de transformação constante.
Cultura e liderança compartilhada
Em “Todos numa direção: Cultura e Liderança Compartilhada”, Luis Justo, CEO da Rock World, colocou a cultura organizacional no centro da discussão.
O executivo destacou a dimensão coletiva necessária para colocar de pé uma operação como o Rock in Rio. Segundo Justo, são 28 mil pessoas envolvidas na realização do festival e todas precisam trabalhar orientadas por um propósito comum.
A conversa também abordou condições de trabalho nos bastidores. O executivo citou estruturas de apoio destinadas aos profissionais, com áreas para descanso, alimentação, água e banho, além de equipes responsáveis por fiscalizar essas condições durante a operação.
“Não tem atalho: a mágica está na soma da atenção a todos os detalhes. E integridade é fazer a coisa certa mesmo quando ninguém está vendo”, afirmou.
Sucessão e continuidade do legado
A transição de liderança também esteve entre os assuntos centrais do Academy. No painel “The show must go on: transições colaborativas”, Agatha Arêas conduziu uma conversa entre Luis Justo e Ronaldo Pereira, que assumirá uma nova posição na estrutura de comando da Rock World.
O encontro marcou ainda uma homenagem a Justo, que encerra um ciclo de 15 anos à frente da empresa. A passagem foi apresentada como exemplo de um processo de sucessão estruturado, no qual conhecimento, cultura e valores são transmitidos para garantir continuidade.
Justo destacou a importância do processo para preservar o legado da organização.
“Nesse momento de transição e olhar para futuro e legado, ter a oportunidade de compartilhar como tem sido esse processo junto com a Agatha e o Ronaldo mostra como uma sucessão bem construída e estruturada é olhar para o futuro e para a permanência do legado”, afirmou.
Ronaldo Pereira ressaltou o aspecto cultural da mudança e a relação construída com a marca.
“Na sucessão, falamos muito de paixão também. Eu sou fã da marca há muito tempo e passei do lado de fã para o lado de quem trabalha na casa. E essa paixão pelo Rock in Rio é algo que se transmite”, contou.
Marcas e emoção na construção de experiências
O relacionamento entre marcas e consumidores foi discutido por Rodrigo Padilla, do Grupo LATAM, e Renata Guaraná, diretora de Parcerias da Rock World, no painel “Presença e conexão através da emoção”.
A conversa mostrou como as empresas parceiras podem utilizar o festival não apenas como espaço de exposição, mas como plataforma para desenvolver experiências e criar vínculos emocionais com o público.
Renata destacou que levar as marcas para dentro do Academy faz parte da proposta de aprendizado compartilhado.
“Para um estudo de caso ao vivo, nada melhor do que trazer a marca para contar junto com a gente o que aprendemos juntos e fazemos melhor a cada edição”, afirmou.
Padilla, por sua vez, explicou que a estratégia da LATAM busca ultrapassar a relação funcional com os consumidores.
“A gente não quer apenas levar as pessoas do ponto A ao ponto B; queremos uma conexão emocional para ganhar não somente a cabeça, mas também o coração dos nossos clientes”, disse.
A participação da LATAM integra a proposta do Academy de apresentar experiências construídas por parceiros que atuam diretamente na plataforma do festival.
Sustentabilidade colocada em prática
A sustentabilidade ganhou espaço no painel “Inovação e Sustentabilidade na Prática”, com Katielle Haffner, da Coca-Cola Brasil, e Letícia Freire, gerente de Sustentabilidade Operacional da Rock World.
A discussão apresentou a parceria entre as duas empresas como exemplo de construção conjunta de soluções para grandes eventos.
Letícia ressaltou que o trabalho exige revisão permanente de processos e colaboração entre diferentes organizações.
“Não fazemos nada sozinhos: nossos impactos são coletivos e as soluções também precisam ser”, afirmou.
A participação da Coca-Cola ocorre pela primeira vez no Rock in Rio Academy e inclui a apresentação de aprendizados relacionados à atuação da empresa em festivais e à sustentabilidade. A companhia também participa da atualização do Guia de Sustentabilidade para Festivais, desenvolvido em parceria com a PUC-Rio.
Como administrar crises quando o planejamento muda
Em “Gestão sob pressão: os desafios do sistema vivo”, o COO da Rock in Rio, Ricardo Acto, e a gerente do Projeto Rock in Rio, Jessica Cavalcanti, abordaram situações em que decisões precisam ser tomadas rapidamente diante de acontecimentos que não estavam previstos.
A conversa tratou de governança, autonomia e responsabilidade técnica como elementos necessários para que diferentes níveis da organização consigam responder a situações críticas.
“É importante ter autonomia e responsabilidade técnica para que um plano tão grande, nas diferentes hierarquias, consiga ser colocado em prática”, explicou Acto.
A discussão reforçou uma das premissas do Academy: em uma operação de grande escala, planejamento e capacidade de adaptação precisam caminhar juntos.
Diferentes gerações dentro da mesma experiência
A comunicação com públicos de diferentes idades foi o tema de “Orquestrando gerações: encontros estratégicos”, que reuniu Ana Deccache, diretora de Marketing da Rock World; Zé Ricardo, vice-presidente artístico; e Joana Cardoso, gerente de Conexões e Influência.
O desafio apresentado foi conciliar uma identidade de marca construída ao longo de décadas com novas tendências e comunidades.
Ana Deccache destacou que o festival trabalha com uma comunicação integrada, mas também desenvolve estratégias específicas para diferentes públicos.
“Orquestrar gerações dentro do maior festival de música e entretenimento do mundo é um desafio e, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade”, afirmou.
Zé Ricardo apontou a presença simultânea de artistas de diferentes gerações como uma característica da identidade do festival.
“O Rock in Rio tem quatro décadas e consegue ter Stray Kids, que é uma tendência nova, mas, ao mesmo tempo, ter Elton John”, explicou.
Para Joana Cardoso, a emoção é o elemento capaz de reunir públicos distintos em torno de uma mesma experiência.
“Colocamos a emoção para trabalhar junto. (…) É assim que continuamos a conduzir a emoção e fazemos com que todos, com suas diferenças, se sintam pertencentes ao mesmo lugar”, afirmou.
Legado como estratégia para o futuro
O encerramento ficou por conta de Roberta Medina e Rodolfo Medina, sócios-fundadores da Rock World, no painel “Multiplicando o legado”.
A conversa abordou como manter a essência de uma marca ao mesmo tempo em que ela incorpora novas tecnologias, comportamentos e formatos.
Roberta Medina destacou que o Academy também tem a função de mostrar a estrutura de gestão que existe por trás da experiência conhecida pelo público.
“A nossa missão é ajudar toda a equipe e os executivos a distinguir o que é Rock in Rio e o que não é Rock in Rio, como base dessa transformação constante”, afirmou.
Rodolfo Medina complementou a discussão abordando o papel das parcerias na construção desse legado.
“O Rock in Rio está sempre se renovando, e nosso papel nas parcerias é encontrar marcas e parceiros que entendam esse DNA e possam construir com a gente novas experiências sem descaracterizar aquilo que somos”, disse.
Cidade do Rock como sala de aula
Ao longo da programação, os participantes também tiveram acesso aos bastidores do festival por meio de trilhas dedicadas a Gestão, Marketing e Produção, além de experiências e dinâmicas relacionadas à tomada de decisões.
A proposta é mostrar que, por trás dos palcos e das grandes atrações, existe uma estrutura formada por pessoas, processos, tecnologia, parceiros e decisões que precisam funcionar de maneira integrada.
Em sua décima edição, o Rock in Rio Academy reforça, assim, a ideia de que a experiência de um grande festival pode ser utilizada como laboratório para discutir questões que ultrapassam o entretenimento: como liderar sob pressão, preservar uma cultura durante períodos de mudança, construir relações com diferentes públicos e parceiros e transformar inovação e sustentabilidade em práticas concretas.
O encontro de 2026 aconteceu na Cidade do Rock em 9 de setembro, com uma programação de aproximadamente 12 horas e participação de executivos da Rock World, especialistas e lideranças de empresas parceiras.







