A Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, considerada uma das maiores manifestações de diversidade do mundo, atravessa um dos momentos mais delicados de sua história às vésperas da edição que celebra três décadas do movimento na capital paulista. Além da redução de patrocínios, o evento passou a enfrentar uma ameaça política após a aprovação, em primeira votação, de um projeto de lei que restringe a realização de eventos LGBTQIA+ em vias públicas da cidade.
A proposta aprovada na Câmara Municipal prevê que eventos ligados à pauta LGBTQIA+ sejam realizados apenas em espaços fechados e com controle de entrada. O texto também proíbe a presença de crianças e adolescentes, mesmo acompanhados pelos responsáveis, além de impedir a ocupação e interdição de ruas e avenidas para esse tipo de manifestação. Caso a medida avance, a tradicional realização da Parada na Avenida Paulista poderá ser inviabilizada.
Juristas ouvidos pela Agência Brasil consideram a proposta inconstitucional por ferir princípios previstos na Constituição Federal relacionados à igualdade, liberdade de expressão e direito de manifestação. O advogado Ariel de Castro Alves, integrante da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB, afirmou que a legislação brasileira não permite discriminação contra qualquer grupo social.
O presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), Nelson Matias Pereira, afirmou que o movimento já enfrentou outras tentativas de restrição ao longo dos últimos anos. “Estão querendo que a gente volte para os armários. Desde que existimos, nesses 30 anos, sempre houve a tentativa de nos colocar de novo no armário”, declarou.
Além do embate político, a organização também lida com dificuldades financeiras. Segundo os organizadores, a Parada perdeu cerca de 60% dos patrocínios em comparação com edições anteriores, o que deve reduzir a dimensão da estrutura montada neste ano. A queda no apoio financeiro afeta não apenas o desfile principal, mas também projetos culturais e sociais vinculados ao evento, como a Feira Cultural da Diversidade e iniciativas de apoio à comunidade LGBTQIA+.
Mesmo diante das dificuldades, a edição de 2026 foi mantida e acontecerá no próximo dia 7 de junho. O tema escolhido pelos organizadores será “A rua convoca, a urna confirma”, em referência à importância da participação política e do voto na definição de direitos e políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+.
Para a organização, a Parada ultrapassa o caráter festivo e segue como um espaço de mobilização política e social. Ao longo dos últimos 30 anos, o evento esteve ligado a debates sobre união estável, criminalização da LGBTfobia, identidade de gênero, adoção por casais homoafetivos e direitos civis da população LGBTQIA+.
A drag queen Tiffany, uma das apresentadoras do evento, afirmou que a Parada continua sendo um espaço de resistência diante do avanço conservador no país. “São 30 anos de parada, 30 anos de acontecimento e a gente sabe que isso nada mais é do que a onda de conservadorismo, de preconceito, de querer fazer aquele retrocesso de direitos que a gente luta para combater há tantos anos”, disse.
Mesmo sob ameaça legislativa, a Prefeitura de São Paulo já publicou portaria criando uma comissão para coordenar o apoio logístico e o monitoramento da edição deste ano, reforçando o planejamento oficial do evento na cidade.
Além da Parada na Avenida Paulista, a programação inclui a Feira Cultural da Diversidade e Empreendedorismo LGBT+, marcada para o dia 4 de junho no Vale do Anhangabaú. O espaço contará com apresentações artísticas, ações de saúde pública, iniciativas de empregabilidade e atividades culturais voltadas à comunidade LGBTQIA+.







