Logo na chegada ao Espírito Santo, a primeira visita técnica reservou uma das experiências mais emblemáticas da cultura capixaba. No bairro de Goiabeiras Velha, na região continental de Vitória, está um dos maiores patrimônios imateriais do estado: o trabalho das tradicionais Paneleiras de Goiabeiras.
A visita, realizada a convite do Sebrae-ES e do Governo do Estado, integrou a programação voltada à imprensa durante o ESTour, iniciativa que busca apresentar o potencial turístico capixaba a jornalistas e agentes de viagens de todo o Brasil.
Um saber que atravessa gerações
As paneleiras representam um dos mais fortes símbolos culturais do Espírito Santo. O ofício, transmitido de geração em geração, mantém viva uma técnica de origem indígena, possivelmente ligada às etnias Tupi-Guarani e Una.
Instaladas às margens do manguezal, as artesãs vivem e trabalham em um mesmo território, onde tradição, sustento e identidade se entrelaçam. É ali que o barro do Vale do Mulembá ganha forma, transformando-se nas famosas panelas utilizadas, entre outros pratos, no preparo da autêntica moqueca capixaba.
Mesmo com o passar dos anos, a estrutura social e o modo de produção pouco mudaram — um reflexo da força da tradição e da resistência cultural da comunidade.
Processo artesanal e sustentável
A produção das panelas segue um método totalmente artesanal e natural. Desde a retirada da argila até o acabamento final, tudo é feito manualmente, sem o uso de equipamentos industriais.

Um dos elementos mais característicos do processo é o uso do tanino extraído da casca do mangue vermelho, responsável pela coloração escura das peças. Já a queima é realizada a céu aberto, seguindo técnicas herdadas dos povos originários.
Esse modelo não apenas preserva o saber tradicional, como também reforça a relação sustentável com o meio ambiente, mantendo práticas que respeitam o ecossistema local.
Reconhecimento e proteção da tradição
Ao longo dos anos, as panelas de Goiabeiras ultrapassaram fronteiras e conquistaram reconhecimento nacional e internacional. Tornaram-se símbolo da cultura capixaba e peça fundamental na identidade gastronômica do estado.
Para garantir a autenticidade e proteger o ofício contra falsificações, foi concedida a Indicação de Procedência pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O registro assegura que apenas as peças produzidas na região, seguindo o método tradicional, possam utilizar o nome “Goiabeiras”.
A medida foi essencial diante do aumento da popularidade das panelas, que passaram a ser reproduzidas de forma irregular em outras localidades.
Turismo cultural com potencial de crescimento
O Galpão das Paneleiras, onde grande parte da produção é realizada, também se tornou um importante ponto de visitação turística. O espaço funciona de segunda a sábado, das 8h às 18h, e aos domingos, das 9h às 15h, recebendo visitantes interessados em conhecer de perto o processo artesanal.

Apesar do valor cultural e do potencial turístico, a estrutura do local ainda apresenta limitações. Questões como estacionamento, banheiros e cuidados com o entorno impactam diretamente a experiência do visitante.
A melhoria desses aspectos pode fortalecer ainda mais o turismo cultural na região, ampliando o reconhecimento das paneleiras e valorizando um dos patrimônios mais importantes do Espírito Santo.
Entre o barro e a identidade
Mais do que utensílios domésticos, as panelas de barro carregam histórias, saberes e resistências. São resultado de um trabalho coletivo, enraizado na tradição e moldado pelas mãos de mulheres que transformaram o barro em símbolo.
Visitar Goiabeiras é, portanto, mais do que conhecer um processo produtivo — é entrar em contato com a essência cultural do Espírito Santo, onde passado e presente se encontram em cada peça produzida.







