O centenário de nascimento de Milton Santos reacende o debate sobre um dos pensamentos mais influentes da geografia contemporânea: a ideia de que o espaço onde vivemos não é neutro, mas resultado direto de escolhas políticas, econômicas e sociais. Nascido em 1926, no interior da Bahia, o intelectual se tornou referência mundial ao construir uma obra que reposicionou o entendimento das cidades, da globalização e das desigualdades.
Ao longo de sua trajetória, Milton Santos rompeu com a visão tradicional da geografia como mera descrição do território. Para ele, ruas, bairros e cidades carregam marcas profundas das relações de poder que estruturam a sociedade. A ausência de saneamento em determinadas regiões, a concentração de serviços em áreas valorizadas e o acesso desigual à infraestrutura não são coincidências, mas consequências de decisões que favorecem grupos específicos.
Um pensamento moldado pela experiência e resistência
Negro e oriundo do interior nordestino, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural dentro da academia ao longo de sua carreira. Ainda assim, construiu uma trajetória internacional sólida, com formação na Universidade Federal da Bahia e doutorado na França, além de atuação em universidades da Europa, África e América Latina.
Durante a ditadura militar brasileira, foi forçado ao exílio, período em que ampliou sua produção intelectual e consolidou uma visão crítica sobre o desenvolvimento global. Ao retornar ao Brasil, tornou-se professor em instituições como a UFRJ e a USP, contribuindo decisivamente para a formação de novas gerações de pesquisadores.
Sua trajetória não apenas ampliou os horizontes da geografia, mas também abriu caminhos para intelectuais negros em espaços historicamente excludentes.
A teoria que explicou a desigualdade nas cidades
Um dos conceitos mais conhecidos de Milton Santos é a divisão da economia urbana em dois circuitos: o superior e o inferior. O primeiro reúne grandes empresas, tecnologia e capital concentrado; o segundo é formado por pequenos comércios e serviços populares, que sobrevivem com poucos recursos, mas atendem às necessidades da população mais vulnerável.
Essa leitura permite compreender, por exemplo, por que bairros periféricos desenvolvem suas próprias dinâmicas econômicas, com mercados locais, vendas fracionadas e serviços adaptados à realidade de baixa renda. Para o geógrafo, essas formas de organização não são improvisadas, mas respostas diretas à exclusão do sistema formal.
Globalização e desigualdade: uma crítica pioneira
Em suas análises sobre globalização, Milton Santos apresentou uma visão crítica ao modelo dominante. Ele argumentava que o processo, frequentemente apresentado como sinônimo de progresso, também amplia desigualdades ao concentrar riqueza e oportunidades em determinadas regiões, enquanto outras permanecem marginalizadas.
O conceito de “meio técnico-científico-informacional” descreve justamente esse fenômeno: áreas altamente conectadas, com tecnologia avançada e infraestrutura eficiente, convivendo com territórios onde faltam serviços básicos. Essa coexistência, segundo ele, revela uma geografia marcada por profundas assimetrias.
Legado atual e influência global
Mais de duas décadas após sua morte, em 2001, o pensamento de Milton Santos segue sendo aplicado em pesquisas no Brasil e no exterior. Estudos sobre urbanização, desigualdade e desenvolvimento continuam recorrendo às suas teorias para interpretar realidades contemporâneas, desde grandes metrópoles até economias periféricas.
Seu trabalho também influenciou políticas públicas e reflexões sobre planejamento urbano, ao destacar a necessidade de considerar o território como elemento central na construção da cidadania e na redução das desigualdades.
Um intelectual que ultrapassou a academia
Reconhecido internacionalmente, Milton Santos recebeu prêmios de grande prestígio, como o Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia”. Sua obra, traduzida em diversos idiomas, consolidou-o como um dos principais pensadores do século XX no campo das ciências humanas.
Ao completar 100 anos de seu nascimento, o geógrafo permanece atual ao oferecer ferramentas para compreender problemas que ainda marcam o Brasil e o mundo. Seu legado vai além da academia: é uma chave de leitura para entender como o espaço urbano revela — e muitas vezes reproduz — as desigualdades sociais.







