A possibilidade de parcelar pequenas compras do cotidiano tem alterado o comportamento financeiro dos brasileiros e contribuído para o aumento do endividamento das famílias. Gastos antes pagos à vista, como compras em supermercados, farmácias e postos de combustíveis, passaram a ser divididos em parcelas sem juros, prática cada vez mais comum no comércio.
Segundo especialistas, o avanço desse tipo de crédito tem levado parte dos consumidores a utilizar financiamentos e limites bancários para cobrir despesas rotineiras do orçamento doméstico.
A diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, observa que o crédito vem sendo usado além da finalidade tradicional de aquisição de bens de maior valor e longa duração. Para ela, a prática pode provocar desequilíbrio financeiro ao transformar o parcelamento em apoio permanente às despesas mensais.
O cenário se agrava em meio ao crescimento do endividamento no país. Dados recentes do Banco Central mostram que o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a 29,7%, enquanto o nível de endividamento alcançou 49,9% em fevereiro deste ano. A inadimplência entre pessoas físicas também avançou nos últimos 12 meses.
A economista Katherine Hennings afirma que o acesso facilitado ao crédito, somado ao estímulo constante ao consumo, contribui para decisões impulsivas de compra. Segundo ela, propagandas tradicionais e conteúdos divulgados por influenciadores digitais incentivam consumidores a anteciparem aquisições, muitas vezes sem avaliar os impactos futuros no orçamento.
Ela destaca que o problema não está restrito a famílias de baixa renda nem apenas a produtos essenciais. O comportamento de consumo, impulsionado pela facilidade de parcelamento, acaba reduzindo a percepção dos custos reais envolvidos nas compras financiadas.
Outro ponto de atenção envolve modalidades de crédito com juros elevados. Quando o orçamento já está comprometido, muitos consumidores recorrem ao cheque especial, ao crédito rotativo do cartão ou ao parcelamento da própria fatura, linhas consideradas entre as mais caras do mercado financeiro.
O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, ressalta que a análise do custo total da dívida deve ser feita antes da contratação do crédito. A orientação é avaliar o impacto dos juros e verificar se as parcelas realmente cabem no orçamento mensal.
A especialista da Consultoria Tendências, Isabela Tavares, chama atenção para um erro frequente entre consumidores brasileiros: considerar o limite do cartão ou do cheque especial como extensão da renda disponível.
“Precisamos entender que o limite do cartão de crédito não é uma renda extra. Temos que conseguir pagar o cartão de crédito com o salário que recebemos no final do mês. Quem ganha R$ 5 mil e tem um limite também de R$ 5 mil não tem renda de R$ 10 mil”, lembra a economista.
O debate sobre o superendividamento também chegou ao Judiciário. Em abril, o Supremo Tribunal Federal determinou a atualização anual do chamado mínimo existencial, mecanismo previsto na Lei do Superendividamento para garantir que parte da renda das famílias não seja comprometida com dívidas.







