Uma das mais antigas cooperativas de reciclagem do Brasil enfrenta uma crise que pode interromper décadas de trabalho social e ambiental. Localizada na zona oeste de São Paulo, a Coopamare recebeu uma ordem para desocupar o espaço onde atua desde o fim dos anos 1980, gerando apreensão entre trabalhadores e levantando questionamentos sobre políticas públicas voltadas à categoria.
Fundada em 1989, a cooperativa se consolidou como referência nacional na organização de catadores e na promoção da coleta seletiva urbana. Atualmente, mais de 80 pessoas dependem diretamente da atividade para sustento, em um modelo que alia geração de renda à preservação ambiental.
A notificação de despejo, segundo relatos dos cooperados, foi recebida no início de abril com prazo de apenas 15 dias para a desocupação — período considerado insuficiente para reorganizar toda a estrutura de trabalho construída ao longo de quase quatro décadas.
Justificativa oficial e impasse
De acordo com a administração municipal, a decisão está baseada em um laudo técnico que aponta risco de incêndio na área ocupada, sob o Viaduto Paulo VI. A prefeitura afirma ainda que a permissão de uso do espaço foi cancelada anteriormente e que alternativas foram apresentadas aos trabalhadores.
Entretanto, os cooperados contestam as opções oferecidas. Segundo eles, os locais sugeridos ficam a quilômetros de distância e apresentam limitações estruturais que inviabilizariam a continuidade das atividades, além de comprometer a relação construída com clientes e parceiros ao longo dos anos.
Impacto social e risco de desestruturação
Para os trabalhadores, a saída forçada não representa apenas a perda de um espaço físico, mas o desmonte de um projeto coletivo consolidado. Muitos catadores relatam que passaram grande parte da vida atuando na cooperativa e enfrentariam dificuldades para se reinserir no mercado formal.
A atividade desempenhada pela Coopamare reflete uma realidade mais ampla no país. Dados recentes indicam que os catadores são responsáveis por cerca de 90% de tudo o que é reciclado no Brasil, apesar de ainda enfrentarem condições precárias e baixa formalização.
Além disso, a presença de cooperativas organizadas ainda é limitada: apenas uma parcela dos municípios brasileiros conta com estruturas formais integradas à gestão de resíduos sólidos, o que reforça a importância de iniciativas históricas como a Coopamare para o funcionamento da cadeia da reciclagem.
Histórico de resistência
Não é a primeira vez que a cooperativa enfrenta ameaças de remoção. No final dos anos 1990, moradores da região chegaram a acionar a Justiça para retirar o grupo do local, mas a decisão judicial foi favorável à permanência dos catadores à época.
Ao longo dos anos, o espaço foi ampliado e estruturado pelos próprios trabalhadores, muitas vezes com apoio de doações e parcerias. O local chegou a abrigar centenas de famílias e se tornou símbolo da luta por reconhecimento da categoria.
Debate sobre políticas públicas
O caso reacende discussões sobre o papel do poder público na inclusão socioeconômica de catadores. Especialistas apontam que políticas de gestão de resíduos devem priorizar a integração dessas cooperativas, garantindo condições adequadas de trabalho e estabilidade para os profissionais envolvidos.
Também chama atenção o contraste entre a relevância ambiental da atividade e a vulnerabilidade enfrentada pelos trabalhadores. Mesmo sendo peça-chave na reciclagem urbana, muitos catadores seguem à margem de políticas estruturadas e dependem de iniciativas locais para manter suas atividades.
Futuro incerto
Diante do prazo reduzido e da ausência de consenso sobre alternativas viáveis, os integrantes da Coopamare buscam diálogo para garantir a permanência na região ou a transferência para um espaço adequado. O principal receio é que a mudança comprometa não apenas a renda dos cooperados, mas também o próprio funcionamento da coleta seletiva na área.
O desfecho do caso deve influenciar não apenas o futuro da cooperativa, mas também o debate nacional sobre a valorização dos catadores e a sustentabilidade das políticas públicas de reciclagem no Brasil.







