Uma celebração marcada pela diversidade religiosa e pelo simbolismo histórico tem mobilizado milhares de pessoas no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, um ato inter-religioso em homenagem a São Jorge tem reunido fiéis católicos e praticantes de religiões de matriz africana, promovendo um encontro que vai além da devoção e se consolida como espaço de diálogo e enfrentamento ao preconceito.
Realizado pelo terceiro ano consecutivo, o evento acontece na Igreja de São Jorge, no bairro Partenon, e é organizado em parceria entre lideranças católicas e representantes do Batuque — religião de matriz africana tradicional no estado. A iniciativa é conduzida pelo Pai Ricardo de Oxum, da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, em conjunto com o padre Sérgio Belmonte, responsável pela paróquia.
Ao longo do dia, a programação reúne práticas distintas que coexistem no mesmo espaço. Enquanto missas são celebradas dentro da igreja, do lado de fora integrantes de terreiros realizam rituais e oferecem bênçãos ao público. A circulação intensa de fiéis evidencia a dimensão do evento, que se tornou um dos principais momentos de expressão religiosa plural na capital gaúcha.
Sincretismo como ponte entre crenças
A celebração tem como base o sincretismo religioso, característica marcante da cultura brasileira. No país, São Jorge é tradicionalmente associado ao orixá Ogum, figura ligada à guerra, proteção e abertura de caminhos nas religiões afro-brasileiras.
Essa relação simbólica permite que diferentes tradições compartilhem o mesmo objeto de devoção, ainda que com significados próprios. Durante o evento, essa conexão se traduz em práticas simultâneas, reforçando a ideia de que distintas formas de fé podem coexistir de maneira respeitosa.
Resistência e superação de barreiras históricas
Para os organizadores, o encontro também carrega um significado político e social. Lideranças religiosas destacam que, historicamente, práticas de matriz africana enfrentaram repressão e preconceito, sendo muitas vezes obrigadas a se manifestar de forma indireta por meio de imagens católicas.
A realização do ato inter-religioso busca justamente romper com esse passado de invisibilidade. Segundo os responsáveis, a proposta é demonstrar que tradições diferentes não são excludentes e podem caminhar juntas, fortalecendo o respeito mútuo e ampliando a compreensão entre comunidades religiosas.
O contexto do Rio Grande do Sul torna essa iniciativa ainda mais relevante. O estado concentra o maior número de praticantes de religiões de matriz africana no Brasil, mas também carrega um histórico de discriminação contra essas tradições.
Rituais e simbolismo marcam programação
A agenda do evento inclui uma série de rituais que reforçam o caráter simbólico da celebração. Entre eles está o tradicional “banho de cheiro”, conduzido por integrantes do Batuque, que representa purificação espiritual.
Outro momento marcante é a procissão ao redor da igreja, seguida pela lavagem das escadarias — prática carregada de significado, associada à renovação de ენერგias e à limpeza espiritual do espaço.
As atividades se estendem ao longo do dia, transformando o local em um ponto de encontro entre diferentes expressões de fé, onde elementos litúrgicos católicos convivem com práticas ancestrais afro-brasileiras.
Expansão e impacto cultural
O movimento tem ganhado força e já inspira ações semelhantes em outras cidades do estado, ampliando o alcance da proposta de integração religiosa. A organização também destaca o crescimento da participação popular a cada edição, consolidando o evento no calendário cultural e espiritual da região.
A Família Yecari, grupo envolvido na organização, reúne milhares de integrantes no Brasil e na América Latina e tem papel central na difusão dessas práticas.
Fé como instrumento de união
Mais do que uma celebração religiosa, o ato em Porto Alegre se afirma como um espaço de construção social. Ao promover o encontro entre diferentes tradições, o evento contribui para reduzir estigmas e fortalecer o reconhecimento da diversidade religiosa no país.
Em um cenário onde ainda persistem episódios de intolerância, iniciativas como essa evidenciam o potencial da fé como instrumento de diálogo, respeito e convivência pacífica entre culturas distintas.







