No coração das montanhas capixabas, a produção de café ganha novos contornos ao unir tradição familiar, inovação e respeito à natureza. O chamado “café do jacu” — considerado um dos mais exóticos do mundo — nasce de um processo singular que envolve a interação direta entre a fauna local e o cultivo agrícola, transformando a Fazenda Camocim em um dos destinos mais curiosos e valorizados do turismo rural brasileiro.

A ave jacu, protagonista dessa história, exerce um papel essencial no ecossistema. Ao se alimentar de frutos maduros, ela atua como dispersora de sementes e, no caso do café, seleciona naturalmente os melhores grãos.
“A presença do jacu como parceiro na produção é fundamental. Ele escolhe os frutos ideais, contribuindo diretamente para a qualidade final do café”, destacou Rogério.
Um café moldado pela natureza
Diferente dos métodos convencionais, o café do jacu passa por um processo natural que começa ainda na lavoura. Após ingerir os frutos, o animal elimina os grãos, que são coletados manualmente e passam por um rigoroso processo de secagem, pilagem e torra.

A produção é limitada — cerca de 1.500 quilos de café finalizado por ano —, embora o volume de coleta seja significativamente maior ao longo do processo, o que reforça sua exclusividade e alto valor de mercado. Todo o processo é feito sem o uso de produtos químicos, seguindo protocolos de bio-cultura orgânica e priorizando a sustentabilidade.
“O cultivo aqui é orientado pela natureza. Integramos a floresta ao cafezal, controlamos pragas de forma natural e preservamos o ambiente como parte essencial da produção”, explicou o guia.
Da resistência à excelência
A ideia de produzir o café do jacu surgiu como alternativa a um problema: as aves consumiam os frutos e impactavam a lavoura. Inspirados por experiências internacionais, como o Kopi Luwak da Indonésia, os produtores decidiram testar o potencial dos grãos após a digestão.
O início foi marcado por incertezas e tentativas frustradas. “O primeiro resultado foi ruim, o segundo também. Foram anos de testes até chegar ao processo ideal”, relata Rogério. O desenvolvimento levou cerca de três anos até atingir um padrão de qualidade satisfatório.
Hoje, o café apresenta notas complexas e sabor diferenciado, resultado direto da seleção natural feita pelo animal e do cuidado em cada etapa do processo.
Herança familiar e visão de futuro
A história da fazenda está diretamente ligada à preservação de um legado. A propriedade, iniciada no fim do século XIX, foi mantida e desenvolvida ao longo das gerações, com destaque para a continuidade do trabalho iniciado pelo avô do atual gestor.
“A gente produz não quantidade, mas qualidade. E essa qualidade tem valor e reconhecimento”, afirma Rogério Lemke.
Atualmente, a fazenda exporta cafés especiais para 26 países, consolidando o Espírito Santo como um player relevante no mercado internacional de cafés premium.
Sustentabilidade como pilar
O modelo de produção adotado é baseado no sistema agroflorestal, onde árvores e café coexistem de forma integrada. Essa estratégia não apenas melhora a qualidade do solo e protege a plantação, como também auxilia no controle natural de pragas.
Problemas comuns na cafeicultura, como ferrugem e cigarrinhas, são enfrentados sem o uso de pesticidas, reforçando o compromisso com a produção orgânica.
Turismo de experiência e curiosidade global

Além da produção, o café do jacu se tornou um atrativo turístico. Visitantes têm a oportunidade de conhecer de perto todo o processo — desde a coleta dos grãos até a torra — e entender por que esse produto desperta tanta curiosidade ao redor do mundo.
Apesar da origem inusitada, especialistas garantem a segurança e qualidade do produto final. Após o processamento, o grão não apresenta qualquer resquício do estágio inicial, transformando-se em um café sofisticado e altamente valorizado.
Espírito Santo no mapa dos cafés especiais
Em um cenário global competitivo, iniciativas como essa reforçam o potencial do Espírito Santo na produção de cafés diferenciados. Combinando tradição, inovação e sustentabilidade, o café do jacu não é apenas uma curiosidade — é um símbolo da capacidade de reinvenção do agronegócio brasileiro.
Mais do que uma bebida, ele representa uma história de persistência, adaptação e respeito à natureza — ingredientes que, juntos, resultam em uma das experiências mais singulares do universo do café.
O Salão Capixaba de Turismo é realizado pela Cooptures, em parceria com o Sebrae/ES e a Secretaria de Estado do Turismo. O evento conta ainda com o apoio do Contures e da Câmara Empresarial de Turismo da Fecomércio-ES. A participação é exclusiva para profissionais do setor e requer credenciamento prévio.







