A população de baleias-jubarte que visita o litoral brasileiro cresceu de aproximadamente 1,5 mil a 2 mil indivíduos, no início da década de 1990, para mais de 35 mil na estimativa de 2022. A recuperação é resultado de décadas de proteção ambiental, pesquisa científica e monitoramento da espécie, trabalho que tem o Instituto Baleia Jubarte como um dos principais protagonistas.
Criado em 1996, o instituto completa 30 anos de atuação em 2026. A organização desenvolve pesquisas sobre o comportamento e as rotas migratórias das baleias, promove ações de educação ambiental e contribui para a formulação de medidas de conservação marinha.
A história do projeto começou em 1988, durante as atividades de implantação do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no sul da Bahia. Na época, pesquisadores identificaram uma pequena população remanescente de baleias-jubarte na região, depois de décadas de caça comercial que reduziram drasticamente o número desses animais.
A descoberta levou à criação de uma iniciativa voltada ao estudo e à proteção da espécie. Com o passar dos anos, o trabalho ganhou estrutura, ampliou sua atuação e passou a contar com o patrocínio da Petrobras, parceria iniciada em 1996 e mantida até hoje.
Da ameaça de extinção à recuperação populacional
A caça de baleias foi proibida no Brasil em 1987, após anos de exploração comercial, principalmente para a extração de gordura utilizada na produção de óleo. A redução das capturas, a criação de áreas protegidas e o desenvolvimento de projetos de conservação contribuíram para a recuperação da população.

Em 2014, a baleia-jubarte deixou a lista brasileira de espécies ameaçadas de extinção. O resultado representa um avanço importante, mas não significa que o animal esteja livre de riscos.
A estimativa populacional mais recente citada pelo instituto registrou mais de 35 mil indivíduos em 2022. O levantamento referente a 2026 ainda está em andamento e, segundo os pesquisadores, deverá apresentar um número um pouco inferior ao recorde anterior.
A variação, no entanto, não indica necessariamente uma redução permanente da população. As baleias mudam suas áreas de concentração ao longo das temporadas, o que influencia a quantidade de animais observados em cada levantamento.
Abrolhos é o principal destino reprodutivo
Todos os anos, as baleias-jubarte migram de áreas de alimentação próximas à Antártica para águas tropicais, onde se reproduzem e dão à luz. No Brasil, o arquipélago de Abrolhos é o principal ponto de concentração da espécie durante esse período.
As atividades de monitoramento ajudam os pesquisadores a compreender os deslocamentos dos animais, identificar indivíduos e acompanhar mudanças no comportamento.
Uma das técnicas utilizadas é a fotoidentificação. As marcas presentes na parte inferior da cauda de cada baleia funcionam como uma espécie de impressão digital, permitindo reconhecer indivíduos em diferentes momentos e locais.

Ao comparar fotografias feitas no Brasil com registros obtidos nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, na Antártica, pesquisadores encontraram correspondências que ajudaram a esclarecer o percurso migratório da espécie.
O trabalho também revelou relações de parentesco entre animais observados nas duas regiões, reforçando o conhecimento sobre o ciclo de vida das baleias-jubarte.
Pesquisa científica orienta medidas de proteção
O instituto mantém bases de pesquisa em Praia do Forte, Caravelas e Itacaré, na Bahia, além de Vitória, no Espírito Santo, e Ilhabela, em São Paulo. A organização também atua em outras regiões por meio de parcerias com universidades, instituições científicas e órgãos públicos.
As pesquisas envolvem estimativas populacionais, análise de comportamento, coleta de amostras biológicas e avaliação dos impactos provocados pelas atividades humanas.
O conhecimento produzido também contribui para decisões relacionadas à navegação, ao turismo de observação e ao planejamento de atividades econômicas no litoral.
Um exemplo citado pela Petrobras é a alteração da rota de embarcações que atendem ao Terminal Aquaviário de São Sebastião, em São Paulo. A mudança levou em consideração as rotas migratórias das baleias para reduzir o risco de colisões.
A empresa financia as atividades do Instituto Baleia Jubarte desde sua criação. Para o ciclo atual de quatro anos, foram destinados aproximadamente R$ 30 milhões ao projeto.
Poluição e mudanças climáticas preocupam pesquisadores
Apesar dos avanços, a conservação das baleias-jubarte enfrenta desafios relacionados à poluição marinha, às mudanças climáticas e aos impactos das atividades humanas no oceano.
O acúmulo de resíduos e microplásticos preocupa os pesquisadores, assim como as alterações ambientais que podem afetar a disponibilidade de alimento nas regiões de alimentação das baleias.
As mudanças na temperatura do oceano podem influenciar a presença de krill, pequenos crustáceos que fazem parte da cadeia alimentar marinha e são importantes para a alimentação desses animais.
O acompanhamento dessas alterações é uma das frentes de pesquisa desenvolvidas pelo instituto. Entre as iniciativas estão estudos com imagens aéreas obtidas por drones, que permitem avaliar características físicas das baleias e buscar possíveis relações entre sua condição corporal e as condições ambientais.
Os registros acumulados ao longo de décadas também ajudam a estimar a sobrevivência dos indivíduos e verificar se eles retornam ao litoral brasileiro em diferentes temporadas.
Para os pesquisadores, compreender essas relações é fundamental para avaliar os efeitos das mudanças ambientais sobre a espécie e antecipar possíveis ameaças.
Educação ambiental e formação de pesquisadores
Além do monitoramento das baleias, o Instituto Baleia Jubarte atua na formação de estudantes e na divulgação científica. O trabalho de campo oferece oportunidades para graduandos, mestrandos e doutorandos participarem de pesquisas e atividades de educação ambiental.
Ao longo de sua trajetória, a instituição reuniu um amplo acervo de fotografias e dados científicos, que também contribui para estudos realizados em parceria com outras organizações.
A atuação inclui ainda o apoio técnico à elaboração de políticas públicas e a orientação de empresas interessadas em reduzir os impactos de suas atividades sobre o ambiente marinho.
Três décadas após sua formalização, o instituto mantém como objetivo conciliar a presença humana no oceano com a conservação das baleias-jubarte e de outros cetáceos.
A recuperação da espécie no Brasil demonstra os resultados alcançados com a proibição da caça, a proteção de áreas importantes para a reprodução e o investimento contínuo em pesquisa. O desafio agora é preservar os avanços conquistados diante das novas pressões ambientais.







