O Estado brasileiro decidiu indenizar a banda Ave Sangria, alvo de censura durante a ditadura militar, em um reconhecimento formal das violações sofridas pelos músicos. A medida foi aprovada pela Comissão de Anistia, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, após análise do caso ocorrida na última semana.
O grupo, surgido em Pernambuco e associado à cena psicodélica da década de 1970, teve sua trajetória abruptamente interrompida em 1974, quando o disco de estreia foi retirado do mercado por determinação do regime militar. A repressão ocorreu após a música “Seu Waldir” ganhar destaque nas rádios com uma narrativa considerada incompatível com os padrões morais impostos à época, levando ao recolhimento dos exemplares e ao cancelamento de projetos futuros da banda.
Com a proibição e as consequências comerciais, a carreira do grupo foi desestruturada. A gravadora suspendeu o lançamento de um segundo álbum, e a banda acabou se dissolvendo pouco tempo depois, só retomando atividades décadas mais tarde.
A decisão da Comissão reconheceu que os integrantes foram vítimas de perseguição política e cultural, o que resultou na concessão de uma reparação econômica mensal e vitalícia no valor de R$ 2 mil, além de pagamentos retroativos desde a formalização do pedido. O processo também incluiu um reconhecimento público dos danos causados pelo Estado brasileiro.
Segundo integrantes e representantes do colegiado, a medida tem caráter simbólico e reparador, ainda que não seja capaz de compensar integralmente as perdas profissionais e pessoais decorrentes da censura. A interrupção precoce da trajetória artística é apontada como um impacto irreversível para o grupo e para a produção cultural daquele período.
O vocalista Marco Polo destacou que a decisão traz alívio após décadas, mesmo sem recuperar as oportunidades perdidas ao longo da carreira. Já outros membros ressaltaram que o reconhecimento oficial representa um avanço na preservação da memória histórica e na valorização da democracia.
Apesar da repressão enfrentada, a banda voltou aos palcos nos anos 2010 e lançou um novo álbum em 2019, retomando sua produção artística. Em 2023, o grupo recebeu o título de patrimônio cultural imaterial do Recife, consolidando sua importância na história da música brasileira.
A decisão reforça o papel das políticas de anistia no Brasil, voltadas à reparação de violações cometidas durante o regime militar, e evidencia a importância da preservação da liberdade artística como um dos pilares fundamentais do Estado democrático.







