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Um mês de calamidade: A cronologia dos alertas da tragédia no RS

Fortes Chuvas Deixam Dezenas de Mortos e Milhares de Desabrigados

Rodrigo SouzaPorRodrigo Souza
1 de junho de 2024
em Notícias
Um Mês De Calamidade A Cronologia Dos Alertas Da Tragédia No RS - Expresso Carioca

© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Impactados pelo incêndio que, um dia antes, havia matado dez pessoas em uma pousada contratada pela prefeitura de Porto Alegre para abrigar pessoas em situação de rua, poucos deram atenção à frente fria que chegou à capital gaúcha no dia 27 de abril de 2024.

Às 7h50 daquele sábado, a Defesa Civil municipal emitiu um alerta sobre a “possibilidade de chuvas intensas e ventos fortes” entre o fim da tarde e a madrugada seguinte (28). O tom do aviso, contudo, não indicava a gravidade do que estava por vir.

“Evite transitar na rua durante esse período”, recomendava o órgão municipal no alerta compartilhado no site da prefeitura. Quase simultaneamente, a prefeitura divulgou a confirmação de uma feira de troca de livros e de um evento para adoção de animais naquela mesma tarde, além de detalhes sobre o esquema de trânsito para uma maratona com cerca de 7 mil participantes, no domingo.

Bairro Farrapos, Em Porto Alegre, Alagado. Chuvas Inundaram Cidades Inteiras No Rio Grande Do Sul - Expresso Carioca
Bairro Farrapos, em Porto Alegre, alagado. Chuvas inundaram cidades inteiras no Rio Grande do Su. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

“Choveu muito aqui, ontem [sábado], então há muitas poças d´água e tudo o mais”, registrou o jornalista Ruy Ferrari em um vídeo gravado pouco antes da largada da corrida no domingo. Nas imagens, é possível ver a capital coberta por nuvens.

De acordo com a MetSul Meteorologia, choveu em Porto Alegre, no sábado (27), o equivalente a 43 milímetros (mm) em apenas seis horas. Além de alagamentos e transtornos, o mau tempo afetou as operações no Aeroporto Salgado Filho. Dois aviões da Azul, provenientes de Curitiba, tiveram que pousar em Florianópolis e aguardar condições melhores para seguir viagem até Porto Alegre.

Após o primeiro alerta sobre “a possibilidade de chuva intensa”, a prefeitura de Porto Alegre voltou ao assunto na manhã de segunda-feira (29), informando que a retirada de fios e cabos de telecomunicações em desuso e a aplicação de inseticida contra mosquitos no bairro Vila Jardim foram suspensas devido ao mau tempo. Horas mais tarde, a prefeitura reconheceu a gravidade da situação, informando sobre “um aumento nas ocorrências” relacionadas a deslizamentos de solo e danos em telhados, com moradores de 12 bairros solicitando atendimentos emergenciais. A elevação do nível do Guaíba já era motivo de preocupação. Quatro dias depois, na quinta-feira (2), a prefeitura decretaria estado de calamidade pública municipal.

Interior

Antes de atingir a região metropolitana de Porto Alegre, os temporais causaram prejuízos em outras cidades gaúchas, como Sant´Ana do Livramento, no oeste do estado, e Pelotas, no extremo sul. As primeiras precipitações significativas começaram no dia 26 e se intensificaram nos dias seguintes.

No dia 27, um tornado atingiu a zona rural de São Martinho da Serra, no centro do estado, sem causar grandes danos. Em Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, centenas de casas foram destelhadas e o fornecimento de energia elétrica foi interrompido. A Defesa Civil municipal orientou os moradores do bairro Várzea a deixarem suas residências devido ao risco de alagamento, pois o Rio Pardinho já estava transbordando.

Chuvas Levaram Milhares De Pessoas A Deixarem Suas Casas E Irem Para Abrigos Públicos - Expresso Carioca
Chuvas levaram milhares de pessoas a deixarem suas casas e irem para abrigos públicos. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

“Desde o dia 27, estamos passando por um período bastante difícil, afetados por um desastre natural. [Houve] queda de granizo, ventos fortes e chuva intensa”, comentou o secretário de Segurança e Mobilidade Urbana de Santa Cruz do Sul, José Joaquim Dias Barbosa. “Nossa cidade está sendo assolada por uma situação bastante grave e muito preocupante, pois continua chovendo”, acrescentou a prefeita Helena Hermany.

Primeiras Mortes

Em 30 de abril, um helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB) resgatou, em Candelária, a primeira de uma série de famílias ilhadas pelas enchentes. No dia 29, as duas primeiras mortes associadas às chuvas ocorreram em Paverama. Só então, o governador Eduardo Leite se pronunciou sobre a situação.

“Eu não sou o homem do tempo, mas toda vez que eu souber de notícia grave sobre o clima aqui no estado, vou compartilhar com vocês”, comentou Leite em um vídeo. “Neste momento, o alerta dá conta dessas regiões do estado, mas provavelmente, amanhã, já tenhamos a transformação disso para o grau severo para todo o estado”, acrescentou o governador.

No mesmo vídeo, ele mencionou que, até o dia 29, já havia chovido, em algumas localidades, até 200 mm. “Há a perspectiva de, até o fim da semana, chover mais 150 mm, podendo chegar a 300 mm em algumas regiões”.

Prevenção

Centro Histórico De Porto Alegre Foi Tomado Pela água No Mês De Maio - Expresso Carioca
Centro histórico de Porto Alegre foi tomado pela água no mês de maio. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A sucessão dos fatos levantou uma questão: por que os órgãos responsáveis não foram capazes de alertar a população, em tempo hábil, sobre a real dimensão do perigo? Se já em 25 de abril, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul identificou que temporais trariam risco de alagamentos, ventos fortes e transbordamento de cursos d´água, por que só a partir do início de maio, quando a infraestrutura de algumas cidades já tinha sido comprometida, os alertas ganharam a necessária ênfase?

Em entrevistas publicadas pela Agência Brasil em 15 de maio, especialistas foram unânimes ao sustentar que, com treinamento adequado, é possível ao menos minimizar as consequências dos fenômenos climáticos.

“Não temos uma Defesa Civil eficiente. Ela está desestruturada, com dificuldades, mal aparelhada, sucateada. E sem mecanismos de alerta. Além disso, a população tem problemas de acesso às informações de prevenção”, disse o geólogo Rualdo Menegat, professor da UFRGS.

“As defesas civis de alguns municípios têm uma ou duas pessoas. Poucos têm uma Defesa Civil consolidada. E a população precisa de treinamento para saber se defender”, comentou o engenheiro civil e professor da PUC-RS, Jaime Federici Gomes. “Imaginemos o exemplo do Japão, que lida com furacões, terremotos e maremotos, e tem toda uma estrutura para conviver com esses eventos extremos. Precisamos aprender a nos defender, a lidar com essas situações e fazer as adaptações estruturais”, completou Gomes.

Alarme

Alagado, Aeroporto Salgado Filho, Em Porto Alegre, Parou De Operar - Carioca
Alagado, Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, parou de operar. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

No início da tarde do dia 30, o governador Eduardo Leite voltou a fazer uma transmissão, reconhecendo que, em vários municípios, a situação já era “preocupante”. Ele conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assegurou que o governo federal enviaria ajuda ao estado e aos municípios gaúchos.

No mesmo dia, a Defesa Civil emitiu um alerta recomendando que as prefeituras adotassem seus “planos de contingência, implementando os abrigos públicos e realizando a retirada das pessoas que vivem nas margens dos rios”. Moradores de áreas de risco de seis cidades (São Francisco de Paula, Canela, Gramado, Nova Petrópolis, Vale Real e Feliz) deviam buscar locais seguros.

No dia 1 de maio, o governo do Rio Grande do Sul decretou estado de calamidade pública. O estado já contabilizava ao menos dez mortos e 21 desaparecidos. Leite reconhecia que a destruição prenunciava o “maior desastre da história” gaúcha em termos de prejuízo material.

O governador negou ter demorado a agir para alertar e evacuar a população. Em entrevista à BBC Brasil, em 17 de maio, ele afirmou que as providências foram tomadas à medida que se verificava sua necessidade. E reiterou que no dia 29 pediu pela primeira vez para as pessoas saírem das áreas de risco.

Questionada sobre a demora do governo estadual e das prefeituras em recomendar que os moradores de áreas de risco deixassem suas residências, a Defesa Civil estadual não havia respondido até a publicação desta reportagem. De acordo com o mais recente boletim do órgão, ao menos 169 pessoas perderam a vida e mais de 2,34 milhões de gaúchos foram afetados em um dos 473 municípios atingidos. Há ainda 44 pessoas desaparecidas e pelo menos 39.595 desabrigadas em todo o estado.

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