No painel “Verdadeiro ou Falso? Da Revolução Informacional aos Desafios nas novas leituras de Mundo”, realizado no Rio2C 2025, uma reflexão profunda sobre os rumos da sociedade hiperinformacional foi conduzida pelo jornalista Ben-Hur Correia, com participações de peso: Gas Oliveira, fundador da BlaBlaLab; Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta; e Tanci Simões, Head de Educação da Cordel/CESAR School.
O mediador Ben-Hur Correia, jornalista do Grupo Globo e pesquisador sobre inteligência artificial, abriu a conversa ressaltando a complexidade do ecossistema informacional contemporâneo. “Saímos da passividade para a proatividade: todos somos produtores e disseminadores de conteúdo, mas poucos sabem fazer curadoria e navegar com segurança nesse mar de informações”, destacou.

Pós-verdade e curadoria: o novo desafio
Patrícia Blanco resgatou o conceito de “pós-verdade”, cunhado como palavra do ano pelo Dicionário Oxford em 2016, explicando que, embora o termo tenha perdido força, a prática permanece: crenças e ideologias frequentemente superam os fatos. “Hoje, a responsabilidade individual na checagem e validação da informação é um imperativo. Todos precisamos de uma educação midiática sólida para navegar eticamente nesse ambiente.”
Blanco, que lidera o EducaMídia, frisou que a alfabetização digital precisa começar cedo, sendo integrada ao currículo escolar e tratada como questão de cidadania.
A ilusão das tecnologias e o “não-pensamento”
Tanci Simões provocou a plateia com um exemplo emblemático: usuários que seguem orientações de GPS cegamente, mesmo contrariando o que veem com os próprios olhos. “Estamos na era do não-pensamento, onde muitas vezes terceirizamos decisões para tecnologias, influenciadores ou algoritmos, sem questionamento crítico.”
Para ela, a escola precisa ir além do ensino instrumental de tecnologia, formando indivíduos capazes de refletir sobre o uso ético e responsável dessas ferramentas. “Não é só porque posso que devo. A apropriação crítica da tecnologia é hoje uma competência indispensável.”
Visualização de dados e a estética da desinformação
Gas Oliveira trouxe à discussão a importância da visualização de dados e sua relação com a forma como construímos e percebemos informações. Fundador do laboratório BlaBlaLab e criador do “SotaQuiz”, Gas lembrou que a tradição de registrar dados visualmente remonta a milhares de anos. “Desde os ossos de Lebombo, usados para marcar ciclos lunares, até os gráficos de barras que usamos hoje: visualizar é interpretar.”

Gas alertou para o potencial de manipulação visual, citando exemplos clássicos de gráficos enviesados, como alterações em eixos para distorcer dados em campanhas políticas ou investimentos financeiros. “A estética pode ser ferramenta de clareza ou de engano”, ponderou.
Ele também destacou a necessidade de educação para leitura crítica dessas representações, citando referências contemporâneas como o Data Humanism, de Giorgia Lupi, e práticas inovadoras de visualização que tornam dados mais acessíveis e compreensíveis.
Nutrição digital e saúde mental
Outro ponto crucial foi a relação entre consumo de informação e saúde mental. Gas apresentou o conceito de “nutrição digital”, criado pela australiana Jocelyn Brewer, que propõe encarar o consumo informacional como uma dieta: “Cada vídeo, cada imagem provoca emoções e impactos cognitivos. O excesso e a ausência de filtro geram sobrecarga mental.”
Ele exemplificou com a diferença no ritmo de vídeos infantis atuais, que realizam cortes a cada 2 segundos, frente a produções dos anos 1970, que tinham cortes a cada 10 segundos. “Essa aceleração altera nossa estrutura cerebral e capacidade de concentração.”
O papel das escolas e a ética no uso das tecnologias
Tanci apontou que as escolas precisam assumir um novo papel: além de ensinar a usar tecnologias, devem educar para a crítica, a ética e a proteção de dados pessoais. “A sociedade mudou sua forma de consumir, produzir e se comunicar. Precisamos preparar os alunos não apenas para usar ferramentas, mas para questionar quem está manipulando seus dados e com qual finalidade.”
Patrícia Blanco reforçou que a resposta passa por uma ação integrada de famílias, escolas, governos e plataformas digitais. “Não adianta só regular. É preciso educar para a autonomia crítica desde a infância.”
A urgência de repensar modelos educacionais
Tanci foi enfática: a educação profissional será a mais impactada pela revolução das inteligências artificiais. “O mercado está mudando a uma velocidade que os modelos tradicionais de ensino não acompanham. Precisamos não apenas capacitar, mas preparar as pessoas para mudanças constantes, com flexibilidade cognitiva.”
Ela defendeu que o ensino superior pode — e deve — ser pioneiro na ruptura com modelos engessados: “O grande ponto de ruptura é repensar nossos modelos de aprendizagem, habituar as pessoas a novas trajetórias sem provocar pânico ou resistência.”

A habilidade crucial para o futuro
No encerramento do painel, a provocação: qual habilidade ensinar a uma criança de 10 anos para prepará-la para os próximos 15 anos? As respostas resumiram o espírito do encontro.
Tanci respondeu: “Flexibilidade cognitiva.”
Patrícia completou: “Ensinar a escutar, a si e ao outro.”
Gas Oliveira arrematou: “Valorizar o pensamento ativo, fazer as próprias conexões, mesmo que erradas.”
Mais do que uma discussão sobre desinformação, o painel revelou uma profunda preocupação ética e educacional: como formar cidadãos críticos e conscientes num mundo em que o volume de informações, a velocidade das mudanças e o poder das tecnologias desafiam a própria essência do que significa conhecer, decidir e viver em sociedade.







