Viajar para o exterior deixou de ser a única opção para quem busca descanso, exclusividade e novas experiências. Nos últimos anos, o turismo doméstico ganhou espaço entre brasileiros que passaram a valorizar destinos mais próximos, especialmente aqueles que oferecem contato com a natureza, gastronomia, bem-estar e experiências personalizadas.
A mudança também acompanha uma busca maior por viagens que demandem menos deslocamentos e permitam aproveitar melhor o tempo. Nesse cenário, hotéis-fazenda, pousadas de luxo e propriedades históricas no interior passaram a disputar a atenção de um público que antes priorizava destinos internacionais.
Para Val Andrade, especialista em gestão de hotéis e turismo e CEO do Grupo Hospedar, a mudança está relacionada principalmente à valorização do tempo, da privacidade e da autenticidade. “Viajar para o exterior hoje envolve longas filas, burocracia de aeroportos, conexões cansativas e o estresse de fusos horários. O interior oferece a experiência de um ‘refúgio imediato’, a poucas horas de carro, sem a perda de tempo logística. O tempo que se gastaria em um aeroporto é revertido em descanso real”, explica.
Segundo Val, outro fator que pesa na decisão é a busca por experiências mais exclusivas e conectadas à identidade de cada destino. “O turismo de massa saturou muitos destinos internacionais tradicionais. O viajante contemporâneo busca o hyper-local: gastronomia do campo, alta coquetelaria, vinhedos locais e arquitetura perfeitamente integrada à natureza, com atendimento altamente customizado e acolhedor”, afirma.
A especialista também destaca que o conceito de luxo vem passando por mudanças. Em vez de estar necessariamente associado a grandes cidades, compras e destinos badalados, ele pode estar relacionado ao silêncio, à privacidade e à possibilidade de desconectar da rotina. “O novo luxo é o silêncio, o espaço amplo e a reconexão com a natureza. A hotelaria de luxo no interior evoluiu drasticamente, oferecendo spas de classe mundial, hotelaria boutique, propriedades históricas restauradas e infraestrutura completa para todas as idades”, diz.
Outro ponto destacado por Val é a possibilidade de reunir diferentes gerações em uma mesma viagem. “As viagens para o interior facilitam a reunião de diferentes gerações da mesma família, como avós, filhos e netos, com conforto e acessibilidade que viagens internacionais longas costumam inviabilizar. Destaco aqui o papel dos hotéis-fazenda”, afirma.
Para a especialista, a mudança não significa necessariamente que os brasileiros deixaram de se interessar por outros países, mas que passaram a atribuir maior valor a experiências que proporcionem descanso e bem-estar. “Para uma parcela cada vez mais expressiva do público de alta renda, a proposta de valor do turismo mudou: o prestígio associado ao acúmulo de carimbos no passaporte perdeu espaço para o valor intangível do tempo, do bem-estar e da exclusividade”, avalia.
Na escolha de um hotel no interior, diferentes elementos podem influenciar a decisão. Natureza e bem-estar aparecem como importantes atrativos para quem deseja se afastar da rotina urbana. “A busca primária é pelo antídoto contra o burnout urbano: o silêncio, a amplitude dos espaços, o ar puro e a infraestrutura de desconexão”, explica Val.
A gastronomia também ganhou importância nesse processo. Para ela, o viajante que busca experiências sofisticadas não abre mão da qualidade à mesa. “O cliente de luxo viaja pela natureza, mas ele não faz concessões à mesa. A gastronomia é o que efetivamente equipara o destino no interior a uma viagem para fora do país. A comida sela o padrão da experiência”, afirma.
A cultura local completa esse conjunto de experiências. Propriedades históricas, produtores regionais, arquitetura, gastronomia e atividades ligadas à história do destino podem transformar uma simples hospedagem em uma experiência turística. “A imersão em propriedades com legado, arquitetura preservada, degustações de produtores locais e storytelling regional entregam a profundidade e o propósito que o novo consumidor de luxo exige. Não é sobre criar um cenário artificial, mas celebrar a identidade real do destino”, destaca.
Para Val, esse movimento também representa uma oportunidade para os próprios hotéis do interior. Em vez de oferecer apenas acomodação, os empreendimentos podem criar experiências completas e personalizadas. “A hotelaria de campo precisa deixar de vender ‘hospedagem’ e passar a posicionar o hotel como um destino curado de estilo de vida”, orienta.
Entre as estratégias estão a criação de pacotes temáticos, experiências gastronômicas, atividades de bem-estar e roteiros personalizados. “Em vez de apenas oferecer uma diária, venda uma ‘Imersão Sensorial e Gastronômica’, incluindo menu degustação harmonizado com produtores locais, sessão de spa ao ar livre e passeios privativos pela propriedade”, exemplifica.
A comunicação também é considerada fundamental para atrair esse novo perfil de turista. Segundo Val, vídeos e conteúdos nas redes sociais devem mostrar não apenas a estrutura do hotel, mas a sensação que a experiência pretende proporcionar. “A decisão de compra desse público é totalmente emocional. As redes sociais e os canais de vendas precisam transmitir a sensação de refúgio antes mesmo da chegada”, afirma.
Outro diferencial é a personalização do atendimento. Preferências alimentares, interesses, datas especiais e atividades de lazer podem ser considerados antes mesmo do check-in. “O luxo está na antecipação de necessidades. Monitorar os hábitos do hóspede antes do check-in e personalizar a estadia com mimos na chegada, menu de travesseiros, roteiros customizados de passeios na região e atendimento humanizado do início ao fim”, explica.
Nesse cenário, a valorização dos produtores e serviços locais também pode fortalecer a experiência. Parcerias com queijarias, vinícolas, alambiques, artistas e historiadores, por exemplo, ajudam a conectar o visitante à identidade do destino e movimentam a economia regional.
Para Val, a combinação desses elementos resume o novo perfil do turismo de experiência. “A natureza e o bem-estar atraem, a cultura local encanta, mas é a gastronomia impecável que garante que o hóspede não sinta qualquer falta da Europa ou de Nova York”, conclui.







