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O avanço da tecnologia e seus efeitos sobre os relacionamentos humanos estão no centro de “O Extermínio da Cegonha”, espetáculo que chega ao Espaço Municipal Cultural Sérgio Porto, no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (23), às 20h. Escrita e dirigida por Pedro Uchoa, a peça combina humor, drama e reflexão para explorar como as transformações digitais influenciam os afetos, as escolhas e a maneira como as pessoas constroem suas memórias.
Pedro também integra o elenco, ao lado de Higor Campagnaro, Julia Limp, Nara Parolini e Ricardo Lopes. A montagem propõe um encontro entre diferentes gerações e seus modos de compreender o mundo, colocando em evidência os conflitos entre a experiência analógica e a realidade marcada por smartphones, aplicativos e redes sociais.
Na história, Isabel decide passar o feriado de Finados em sua cidade natal acompanhada do namorado, do cunhado e da irmã mais nova. O reencontro inesperado com Samuel, um amigo de infância, desencadeia acontecimentos que recuperam lembranças do passado e revelam conflitos que não podem ser desfeitos.
A narrativa acompanha personagens que cresceram em contextos distintos. Enquanto uma geração viveu a infância compartilhando o telefone fixo da família, outra se formou em meio à comunicação instantânea e à exposição constante nas redes. Madá, irmã mais nova de Isabel, representa esse olhar da geração Z, em uma sociedade na qual experiências cotidianas são registradas em publicações digitais e a repercussão das emoções pode ser medida pelo engajamento.
Tecnologia, silenciamento feminino e responsabilidade emocional
Além das diferenças geracionais, o espetáculo aborda temas como responsabilidade emocional, silenciamento feminino e consciência de privilégios. A proposta é mostrar como as mudanças tecnológicas também interferem na maneira de estabelecer vínculos, lidar com conflitos e assumir as consequências das próprias decisões.
O texto começou a ser desenvolvido há mais de dez anos e passou por diferentes adaptações ao longo desse período. Com a evolução das ferramentas digitais e a transformação dos hábitos sociais, a tecnologia deixou de funcionar apenas como cenário e passou a ocupar uma posição central na construção dos conflitos dramáticos.
Pedro Uchoa explica que o tempo de desenvolvimento da obra permitiu incorporar mudanças históricas e pessoais à dramaturgia.
“A cada gaveta, eu percebia que o mundo tinha avançado alguns passos e o texto precisava acompanhar esse deslocamento. Ele nasceu em outro momento histórico, quando muitas das questões digitais que hoje parecem centrais ainda estavam em formação. Ao longo desse tempo, o texto não ficou parado. Ele foi atravessado pelas transformações do mundo e pelas minhas próprias. O tempo trouxe um diálogo vivo com aquilo que eu ia escrevendo e funcionou como um coautor silencioso, tensionando ideias, aprofundando personagens e deixando que as imagens amadurecessem, até encontrarem a forma que têm hoje”, afirma o autor e diretor.
Para Uchoa, a velocidade dessas transformações também amplia o papel provocador do teatro, que pode criar um espaço de reflexão sobre comportamentos que se modificam rapidamente.
“As renovações tecnológicas alteraram profundamente o comportamento humano, em uma velocidade tão vertiginosa que se tornou urgente registrar em cena este nosso tempo. Diante dessa aceleração, o teatro tem que assumir quase uma função provocativa, criando uma experiência que nos permita reconhecer o impacto dessas transformações em nossas escolhas, afetos e conflitos. Uma experiência que não compete com a tecnologia, mas contracena com ela”, aponta.
O diretor também destaca a responsabilidade de abordar questões contemporâneas sem simplificar os dilemas apresentados. “A tecnologia hoje não é uma ferramenta, é um território. Então, quando usamos dramaturgicamente este território para criarmos uma dramaturgia que dialoga com o hoje, com nosso novo letramento, após criação de palavras que nem existiam no nosso dicionário, isso é também uma responsabilidade ética. Existe o desafio de tratar de assuntos tão atuais sem cair em respostas fáceis. A peça nasce desse desejo de pensar o presente com complexidade poética, mas sem simplificar de forma leviana os conflitos que nos atravessam”, pondera.
Espetáculo aproxima plateia e palco com interação digital
A encenação combina realismo e poesia, alternando momentos cômicos e trágicos em uma narrativa fragmentada e conectada à experiência contemporânea. A interação com o público começa antes mesmo do desenvolvimento da história, com um karaokê no qual os espectadores podem sugerir músicas por meio de um QR Code.
A participação continua no ambiente digital: a plateia também pode interagir em tempo real com o perfil do espetáculo no Instagram para escolher as canções. Dessa forma, a montagem propõe uma experiência que ultrapassa a divisão tradicional entre palco e público, incorporando recursos tecnológicos à própria dinâmica teatral.
Segundo Pedro Uchoa, a intenção é criar uma relação direta com os espectadores e estimular o reconhecimento de situações e dilemas presentes na vida cotidiana.
“Desde a primeira cena o público deixa de ser apenas espectador e passa a compartilhar a experiência. Canta junto, ri, se reconhece e, aos poucos, percebe que é testemunha nas questões que a peça aborda. É um trabalho que mistura humor e vertigem, vulnerabilidade e tecnologia. Me interessa fazer um teatro que afete a plateia, que provoque uma reflexão nos mais profundos paradigmas e use o teatro para pensar a própria vida. Criamos toda noite uma espécie de pacto silencioso que se estabelece cada vez que toca o terceiro sinal, cada vez que um elenco invoca merda. Quando faço teatro, faço para o outro”, conclui.
Ao unir recursos digitais, participação da plateia e conflitos familiares, “O Extermínio da Cegonha” leva ao palco questões sobre como a tecnologia redefine as relações humanas e influencia a forma como cada geração percebe o mundo.
Sinopse
Na trama, Isabel decide passar o feriado de finados em sua cidade natal com seu namorado, seu cunhado e sua irmã mais nova. Porém, um reencontro a princípio casual com Samuel, seu amigo da infância, desencadeia acontecimentos que trazem à tona fantasmas do passado, revelando conflitos e memórias irrebobináveis. Um olhar sensível sobre o que resta de nós quando nossas escolhas são atravessadas por algoritmos e as consequências de um clique. ‘O Extermínio da Cegonha’ mistura realismo brutal e poesia para investigar o colapso do encontro sinestésico entre o que fomos e o que nos tornamos atravessados pela tecnologia.
Sobre Sérgio Porto
Fundado em 1983 no bairro do Humaitá, o espaço foi batizado em homenagem ao cronista e escritor Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como um polo de vanguarda e resistência cultural na Zona Sul do Rio de Janeiro, sendo reconhecido como ponto de partida para novos talentos da música, do teatro, da dança e das artes visuais, promovendo a integração entre diferentes linguagens artísticas.
Serviço
“O extermínio da Cegonha”
Temporada: 23 de outubro a 15 de novembro de 2026
Horário: Sexta-feira e Sábado, às 20h; Domingo, às 19h
Local: Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto
Endereço: Rua Visconde de Silva, s/nº (ao lado do prédio 292) – Humaitá
Ingressos: R$ 30 (meia-entrada) / R$ 60 (inteira)
Link de Compra do Ingresso: https://bileto.sympla.com.br/event/126895/d/413814/s/2693094
Contatos: (21) 3085-3549 | teatrosergioporto.cultura@prefeitura.rio
Informações sobre programação, acessibilidade, estacionamento e outros serviços: https://cultura.prefeitura.rio/espacos-culturais/teatros/espaco-cultural-municipal-sergio-porto/
Funcionamento: quarta a sexta-feira, de 14h às 22h; sábado e domingo, de 15h às 22h
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 80 minutos
Instagram: @exterminiocegonha






