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Mulheres são maioria entre as vítimas de violência política nas eleições de 2026

Levantamento de organizações de direitos humanos contabilizou 134 episódios até o primeiro turno; ameaças, misoginia e agressões atingiram candidatas e outras representantes políticas

Lucio AntunesPorLucio Antunes
8 de outubro de 2026
em Política
Mulheres São Maioria Entre As Vítimas De Violência Política Nas Eleições De 2026 - Expresso Carioca

© Lula Marques/Agência Brasil

A violência política no Brasil aumentou durante a campanha eleitoral de 2026, com as mulheres entre as principais vítimas dos ataques registrados. Um levantamento das organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global identificou 134 episódios de violência política entre o início da campanha, em 16 de agosto, e o primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro. Desse total, 70 casos, equivalentes a 52,2%, tiveram mulheres como vítimas. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (8).

O estudo contabilizou, em média, um episódio a cada nove horas durante os 50 dias de campanha. Entre os 102 casos direcionados especificamente a pessoas candidatas, 60 atingiram mulheres, o equivalente a 58,8%. Embora representem aproximadamente um terço das candidaturas, elas foram alvo de mais da metade dos episódios registrados nesse grupo.

O levantamento ganhou destaque no mesmo dia em que a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) denunciou ameaças de morte e de violência sexual.

Ameaças são a forma mais recorrente de violência

As ameaças lideraram os registros, com 64 ocorrências. Na sequência, apareceram 33 casos de ofensas e 19 de agressões físicas. A pesquisa também identificou 11 atentados, cinco episódios de criminalização e dois assassinatos de agentes políticos ligados à esfera municipal: um vereador e um secretário municipal.

A maior parte dos episódios, 71 casos, ocorreu nas ruas. As agressões no ambiente digital também preocupam as organizações responsáveis pelo estudo, que apontam dificuldades para enfrentar ataques sistemáticos nas redes sociais.

Para Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, a violência política de gênero é utilizada para desqualificar e intimidar mulheres que participam da vida pública.

“É necessário uma força-tarefa do Estado para dar respostas mais rápidas contra essas violências”, avaliou a pesquisadora em entrevista à Agência Brasil.

Misoginia, racismo e transfobia aparecem nos registros

Entre os 70 episódios envolvendo mulheres, 45 apresentaram elementos de machismo ou misoginia. Outros nove foram associados ao racismo e cinco à transfobia.

A diferença também aparece na natureza dos ataques. Entre os 97 episódios classificados como violência simbólica, categoria que inclui ameaças e ofensas, as mulheres foram vítimas em 60 casos, correspondentes a 61,9%.

Já entre os 32 registros de violência física, incluindo agressões, atentados e assassinatos, a participação feminina foi de 21,9%. As sete ameaças de violência sexual identificadas no levantamento tiveram mulheres como vítimas.

Pessoas negras representaram 44,8% do total de vítimas de violência política, com 60 registros. Entre as mulheres atingidas, 19 eram mulheres pretas, mais de um quarto do grupo.

“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira”, disse Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global.

Casos aumentaram em relação a 2022

O levantamento identificou crescimento em comparação com o primeiro turno das eleições de 2022, quando foram registrados 121 episódios. A edição de 2026 também apontou que a violência política foi cinco vezes mais frequente durante o período eleitoral do que fora dele. No intervalo sem disputa eleitoral considerado pela pesquisa, a média era de uma ocorrência a cada 44 horas.

Entre os casos contabilizados neste ano, 54 atingiram pessoas que disputavam ou exerciam cargos federais, o equivalente a 40,3%. Outros 48 episódios, ou 35,8%, envolveram pessoas ligadas a cargos estaduais.

São Paulo liderou o número de registros, com 16 ocorrências, seguido por Rio Grande do Norte, com 13; Minas Gerais, com 12; e Rio Grande do Sul, com dez.

Pesquisadoras alertam para subnotificação

As organizações responsáveis pelo estudo ressaltam que os números podem estar abaixo da dimensão real do problema. O levantamento depende, em grande parte, de casos que chegam ao conhecimento público, e nem todas as vítimas denunciam as agressões.

Segundo Gisele Barbieri, o medo de novas ameaças e a ausência de respostas das autoridades podem impedir que os episódios sejam formalizados ou divulgados.

A pesquisadora defende que as denúncias recebam respostas rápidas e que os responsáveis sejam punidos, tanto para proteger as vítimas quanto para evitar a repetição das agressões.

Nenhum dos casos registrados teve punição até o fim da coleta

De acordo com a pesquisa, nenhum dos 134 episódios identificados havia resultado em punição até o encerramento da coleta de dados. Em pelo menos oito situações, foram adotadas medidas urgentes, como remoção de vídeos, suspensão de perfis nas redes sociais e concessão de medidas protetivas.

Para as organizações, essas providências podem interromper ataques, mas não equivalem à responsabilização dos autores.

O levantamento também identificou agentes públicos como autores em 26 episódios, correspondentes a 19,4% do total. Entre eles, pelo menos 14 eram parlamentares ou governantes e sete eram agentes de segurança.

Os dados reforçam a preocupação das entidades com as condições de participação política no país, especialmente para mulheres, pessoas negras e pessoas trans, grupos que enfrentam formas específicas de violência durante o exercício de atividades públicas.

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Tags: Eleiçõeseleições 2026Expresso CariocaJustiça GlobalNotíciasTerra de DireitosViolência política
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