A memória ocupa um lugar central na trajetória literária de Milton Hatoum. O escritor manauara voltou ao tema durante sua participação na 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, onde apresentou reflexões sobre sua obra mais recente, os impactos da ditadura militar brasileira e a importância de preservar experiências individuais e coletivas.
Hatoum participou de uma mesa no Museu Eugênio Teixeira Leal, onde discutiu literatura, memória e tempo. A relação entre lembranças e criação literária acompanha o autor desde seu primeiro romance, Relato de um Certo Oriente, e permanece presente em Dança de Enganos, publicado no fim de 2025 e responsável por encerrar a trilogia O Lugar Mais Sombrio.
A obra mais recente é construída a partir das memórias e anotações de Lina, mãe de Martim, personagem central dos dois volumes anteriores, A Noite da Espera e Pontos de Fuga. Ao assumir o protagonismo da narrativa, Lina revisita acontecimentos familiares e confronta marcas deixadas por um período de autoritarismo no país.
Para Hatoum, a memória ganha sentido quando estabelece uma ligação entre diferentes tempos.
“A memória na literatura é, vamos dizer, fundamental. Ela é uma espécie de musa tutelar dos escritores. Mas a memória não é algo que está cristalizado no passado. A memória só faz sentido na literatura – e eu acho que na própria vida – quando você traz o passado para o presente e ela adquire um significado mais forte.
Porque tudo que nós vivenciamos hoje tem a ver com o nosso passado, não apenas recente, mas distante também”, disse ele a jornalistas, antes de participar de uma mesa promovida pela Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) no Museu Eugênio Teixeira Leal, em Salvador.

Família no centro da trilogia
Embora a ditadura militar seja o contexto histórico que atravessa os três romances de O Lugar Mais Sombrio, Hatoum explica que a questão familiar está no centro da narrativa. Os livros acompanham personagens jovens que atravessam infância, juventude e parte da vida adulta em um ambiente marcado por repressão, censura e violência política.
“A trilogia O Lugar Mais Sombrio fala basicamente disso, de um grupo de jovens, de personagens jovens, que, enfim, passaram a infância, a juventude e uma parte da vida adulta durante um período de opressão, de autoritarismo, de brutalidade, de repressão e de censura. Isso é um tema tratado nesses três romances, mas não é o tema principal”, disse o escritor.
No último volume, a narrativa muda de perspectiva e acompanha a mãe de Martim. Lina utiliza suas próprias lembranças para reconstruir a história da família e descobrir acontecimentos que desconhecia.
“E esse último volume é o livro da mãe, que é um livro de memórias, justamente em que ela praticamente fala sobre a família, sobre ela e descobre coisas muito surpreendentes – e por isso o título é Dança de Enganos. Ela viveu durante um período da vida dela movida por enganos, por falsidades. E então ela descobre coisas que só mesmo essa presença da memória faz com que ela tenha consciência do que ela é”, explicou.
Durante o encontro, o escritor também contou que teve acesso a diários e relatos de amigos que foram presos e torturados durante a ditadura. Esse material serviu como referência para a construção dos romances, mas Hatoum optou por transformar as experiências documentadas por meio da ficção.
“E eu li muitas vezes chocado porque são relatos muito duros, de uma crueza assim incrível e impressionante. Mas eu usei muito pouca coisa desse material que eu li, porque eu queria, a partir do que li, inventar. Porque esse é o grande pilar do romance, a imaginação”.
A própria experiência de sua geração também influenciou a construção da trilogia. Hatoum relatou que muitos jovens envolvidos no movimento estudantil ou na resistência à ditadura tiveram amigos presos, torturados ou mortos.
“Foi também uma vingança. Quem da minha geração participou do movimento estudantil ou participou ativamente da luta contra a ditadura, quem não perdeu amigos ou não teve um amigo preso, foi submetido à tortura”.
Literatura e o presente
A relação entre passado e presente também aparece na maneira como Hatoum revisitou os textos da trilogia durante o processo de escrita. O escritor contou que alterou trechos dos livros diante do cenário político brasileiro e do surgimento de manifestações favoráveis ao retorno de um período autoritário.
“Foi o momento em que eu encontrei para também me posicionar. Quer dizer, não como um texto de denúncia porque eu não aprecio muito isso, nem também de uma forma didática, mas eu mudei muita coisa sobretudo entre o segundo e o terceiro volumes [da trilogia]. Eu reescrevi muitas coisas em função dessa catástrofe política que se abateu sobre o Brasil. Como é que eu vou definir essa gente? São absolutamente facínoras”.
Ao falar sobre o cenário atual, o escritor também apontou a empatia como um elemento necessário para enfrentar as tensões sociais.
“A empatia também serve para a crise que nós estamos vivendo. Porque ela é exatamente o contrário, o oposto do egotismo. Uma pessoa empática integra as suas necessidades básicas ou vitais com o coletivo, com a necessidade dos outros. E é isso que falta”, refletiu.
Novo integrante da Academia Brasileira de Letras
A participação de Hatoum na Flipelô ocorreu poucos meses depois de sua posse na Academia Brasileira de Letras (ABL). O escritor destacou que sua entrada na instituição representa também a presença da literatura produzida a partir da Amazônia.
“Por acaso, sou o primeiro escritor da Amazônia na Academia Brasileira de Letras. Mas, enfim, continuo a fazer o que eu venho fazendo há mais de 35 anos, que é dar palestras, falar basicamente sobre literatura, ler muitos livros e escrever alguns poucos”, disse.
Autor premiado e um dos nomes de destaque da literatura brasileira contemporânea, Hatoum teve o auditório do Museu Eugênio Teixeira Leal lotado durante sua participação na festa literária.
Educação como instrumento de cidadania
A educação também apareceu entre os assuntos discutidos com o público. Hatoum defendeu a reconstrução da escola pública e relacionou a questão ao fortalecimento da cidadania e à redução das desigualdades.
“Isso seria fantasticamente um ato patriótico, de formar cidadania e de dar condições de igualdade a todos da escola pública.”
Ao abordar sua própria formação, o escritor recordou Maria Luiza Freitas Pinto, professora responsável por alfabetizá-lo. A lembrança veio acompanhada de uma história que Hatoum considera marcante em sua trajetória.
“Pode parecer um pouco piegas, mas eu vou contar. Quando eu publiquei meu primeiro livro, eu morava em Manaus, em 1989. E ela estava na fila [para autógrafos]. Ela chegou, abriu a bolsa e disse: ‘vou te mostrar uma coisa’. Aí ela tirou um papel amarelo, desdobrou e disse: ‘Essa é a sua primeira redação. Eu guardei porque eu achava que você ia se tornar um escritor’. Ela morreu aos 104 anos. E até os 100 anos, ela ia aos lançamentos do meu livro”.
A 10ª edição da Flipelô começou na quarta-feira (5) e termina neste domingo (9), reunindo escritores, leitores e artistas em diferentes espaços do Centro Histórico de Salvador.







