A trajetória de Paulo Cezar Branco, jornalista que enfrentou perseguições durante a ditadura militar e fez da atividade profissional uma forma de resistência, ganha um novo registro em “Em Confidência: as memórias de um jornalista de coragem”. Escrito por seu filho, Paulo Branco Filho, o livro é publicado pela Artêra, selo da Editora Appris, e reúne documentos, reportagens, registros históricos e lembranças familiares para reconstruir a história do jornalista.

A obra parte da trajetória profissional de Paulo Cezar Branco para também recuperar uma relação entre pai e filho que passou a ser observada sob uma nova perspectiva durante o processo de pesquisa. O trabalho reúne informações sobre a atuação do jornalista em um dos períodos mais repressivos da história recente do país e contribui para preservar registros sobre o exercício do jornalismo durante o regime militar.
Nascido em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro, em 1948, Paulo Cezar Branco foi preso na capital fluminense em 1968, acusado de distribuir panfletos com críticas ao regime militar. Depois, passou a trabalhar na Tribuna da Imprensa, veículo que esteve entre os jornais mais perseguidos pela ditadura.
A atuação profissional levou o jornalista a ser acompanhado pelos órgãos de repressão. Seu nome passou a constar nos registros do Serviço Nacional de Informações (SNI), enquanto suas reportagens continuavam abordando denúncias e questões relacionadas ao período político. Mesmo submetido à vigilância, manteve uma postura independente no exercício da profissão.
Uma pesquisa baseada em milhares de documentos
Para escrever o livro, Paulo Branco Filho realizou uma extensa pesquisa sobre a produção jornalística do pai. Aproximadamente três mil colunas e reportagens foram analisadas, ao lado de processos judiciais, documentos do antigo SNI e outros registros produzidos durante o período.
O levantamento também incluiu entrevistas e conversas com jornalistas e historiadores que conheceram ou acompanharam a atuação de Paulo Cezar Branco. Entre eles está Marco Morel, responsável pelo prefácio da obra e pela contextualização da trajetória do jornalista dentro da imprensa brasileira daquele período.
A pesquisa permitiu reconstruir não apenas os episódios de perseguição política, mas também a continuidade da carreira de Paulo Cezar Branco após o fim da ditadura.
Com a redemocratização, ele continuou produzindo um jornalismo marcado por denúncias. Algumas publicações chegaram a resultar em processos judiciais, posteriormente acompanhados pela confirmação dos fatos denunciados.
Sua atuação também incorporou questões internacionais. Entre as causas defendidas pelo jornalista estava a soberania dos povos árabes, especialmente a questão palestina. Em determinado momento de sua trajetória, Paulo Cezar Branco chegou a se encontrar com Yasser Arafat, então líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).
A descoberta de um pai além da memória familiar
O processo de pesquisa levou Paulo Branco Filho a reexaminar a imagem que tinha do pai. A documentação reunida e o contato com pessoas que acompanharam sua carreira revelaram aspectos de sua personalidade e de sua maneira de exercer o jornalismo.
“O que esse mergulho revelou foi um homem corajoso, estudioso e muito humano. Meu pai enfrentava uma ditadura que prendia, torturava e assassinava pessoas, mas acreditava que a melhor forma de resistir era fazendo jornalismo. Defendia suas ideias com firmeza, sem transformar diferenças políticas em ataques pessoais”, afirma o autor.
Embora tenha escolhido uma área profissional diferente, Paulo Branco Filho também construiu uma trajetória marcada pela disciplina e pela atuação pública. Ex-atleta de kickboxing, conquistou títulos intermunicipais, estaduais, brasileiros e sul-americanos. Em 2005, foi escolhido como melhor atleta de sua categoria.
Atualmente, trabalha como professor de artes marciais e dirige a Escola de Artes Marciais Paulo Branco. Também atua como cronista político, mantendo a escrita entre suas atividades profissionais.
Memória como registro histórico
Ao reunir a produção jornalística do pai e documentos relacionados à repressão política, o autor procura preservar uma parte da história da imprensa brasileira e mostrar como jornalistas atuaram em um período de restrições às liberdades e perseguição a profissionais que confrontavam o regime.
Para Paulo Branco Filho, a pesquisa também estabelece uma relação entre memória pessoal e conhecimento histórico. O livro parte de uma história familiar, mas amplia o olhar para acontecimentos que ultrapassam a trajetória individual de seu pai.
“Espero que o leitor perceba como é importante conhecer a história da nossa família e do nosso país. Só assim conseguimos fazer escolhas com mais consciência e evitar que erros se repitam”, conclui.







