Em 1911, a chegada de Jane Catulle Mendès ao Rio de Janeiro transformou-se em um dos maiores acontecimentos culturais do período. A poeta francesa, já reconhecida em Paris, desembarcou na então capital federal e, deslumbrada com o pôr do sol sobre a Baía de Guanabara, batizou a cidade com a expressão que atravessaria gerações: “Cidade Maravilhosa”.
Essa autoria, até hoje quase esquecida, é agora restituída pelo jornalista e pesquisador Rafael Sento Sé em A poeta da Cidade Maravilhosa (Autêntica Editora). Fruto de 13 anos de investigação, o livro reúne arquivos, jornais, cartas e documentos que revelam a importância da escritora para a cultura carioca e mundial.
Do trabalho emergiu também outra descoberta: o livro La Ville Merveilleuse, publicado por Jane em Paris, em 1913, com 33 poemas dedicados ao Rio de Janeiro, agora traduzidos pela primeira vez para o português.
“Com maestria literária e apoiado em notável pesquisa, Rafael Sento Sé nos oferece testemunhos da emancipação feminina nas primeiras décadas do século XX. Conduz-nos também ao ambiente intelectual e social de Paris e do Rio”, escreve a historiadora Mary Del Priore, que assina o texto de orelha.
Uma mulher à frente de seu tempo
Nascida em 1867, Jane foi viúva do poeta Catulle Mendès, grande difusor do parnasianismo. Frequentava a elite artística parisiense, era comadre da atriz Sarah Bernhardt e conviveu com nomes como Jean Cocteau. Sua família também se ligava às artes: suas enteadas foram eternizadas no quadro As meninas ao piano, de Renoir, hoje no Metropolitan Museum de Nova York.
Em Paris, Jane se destacou por integrar um jornal produzido apenas por mulheres — ousadia para a época. No Brasil, sua passagem de três meses foi marcada por conferências, encontros literários e até uma espécie de “coletiva de imprensa” no Hotel dos Estrangeiros, pioneira em afirmar-se como intelectual autônoma diante da sociedade patriarcal.
Redes femininas e silenciamentos
A pesquisa de Sento Sé também resgata a rede de escritoras brasileiras com quem Jane dialogou no Rio, mulheres igualmente esquecidas pela história oficial. Entre elas:
- Júlia Lopes de Almeida, anfitriã da francesa em seu famoso “salão verde” e impedida de ingressar na Academia Brasileira de Letras por ser mulher;
- Gilka Machado, poetisa que escandalizou a elite ao assumir a sexualidade feminina em seus versos;
- Leolinda Daltro, professora, sufragista e fundadora do Partido Republicano Feminino;
- Emília Moncorvo Bandeira de Melo, jornalista e dramaturga de destaque no período.
Um legado redescoberto
A trajetória de Jane Catulle Mendès ajuda a compreender não apenas a criação da marca mais célebre do Rio de Janeiro, mas também o contexto de modernidade, resistência e protagonismo feminino que florescia nas primeiras décadas do século XX. Esquecida por décadas na França e no Brasil, a poeta volta agora ao lugar de onde jamais deveria ter saído: o da memória cultural e histórica que consagrou o Rio como Cidade Maravilhosa.
Serviço
A POETA DA CIDADE MARAVILHOSA
Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque
Editora: Autêntica
Autoria: Rafael Sento Sé
Páginas: 224
Formato: 14 x 21
Acabamento: Brochura
ISBN físico: 978-65-5928-629-4
Preço: R$ 69,80
ISBN digital: 978-65-5928-630-0
Preço e-book: R$ 48,90
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