Balsas, no extremo sul do Maranhão, é hoje um dos símbolos mais evidentes das contradições entre desenvolvimento e meio ambiente no Brasil. O município, que há 25 anos era uma cidade rural, se tornou o segundo que mais desmatou no país, e o epicentro da expansão agropecuária na região conhecida como Matopiba — fronteira agrícola formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
A pujança do agronegócio transformou o Cerrado em um polo de riqueza e progresso, mas também em uma zona de alerta ambiental. O desmatamento acelerado ameaça as nascentes do Rio Balsas e de outras bacias fundamentais para o abastecimento do Nordeste e do país. Pesquisas indicam que a vazão dos rios da região caiu até 24% nos últimos 40 anos, uma redução alarmante para o chamado “berço das águas” do Brasil.


Crescimento acelerado e impactos ambientais
De acordo com o Relatório Anual de Desmatamento (RAD 2024), do MapBiomas, Balsas foi responsável pela supressão de 16 mil hectares de vegetação apenas no último ano — o equivalente a 45 campos de futebol por dia. Mesmo com uma leve redução em relação a 2023, o município continua a liderar o ranking da devastação no Cerrado.
Ao mesmo tempo, Balsas ostenta o terceiro maior PIB do Maranhão, atrás apenas de São Luís e Imperatriz. O boom econômico ganhou novo fôlego com a inauguração da maior biorrefinaria de etanol de milho da América Latina, da empresa Inpasa, capaz de processar 2 milhões de toneladas de grãos e produzir quase 1 bilhão de litros de biocombustível por ano.

Para ambientalistas, no entanto, o avanço do agronegócio na região se traduz em uma ameaça direta à segurança hídrica. “O Cerrado está acabando e a água está sumindo”, alerta o agricultor familiar José Carlos dos Santos, morador do Vão do Uruçu, onde estão várias nascentes do Rio Balsas que hoje secam fora do período chuvoso.
Crise hídrica silenciosa
O Serviço Geológico Brasileiro (SGB) e a Agência Nacional de Águas (ANA) confirmam que, embora o volume de chuvas se mantenha estável, a vazão dos rios da região caiu significativamente desde os anos 1970. O geógrafo Ronaldo Barros Sodré, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), define o fenômeno como uma “crise hídrica silenciosa” — agravada pela expansão das monoculturas e pelo assoreamento das nascentes.
“Estamos diante de uma transformação profunda do Cerrado, que ameaça o equilíbrio hídrico não apenas do Maranhão, mas de todo o Brasil central”, adverte o pesquisador.

O outro lado do progresso
Produtores rurais defendem o papel do agronegócio como motor de desenvolvimento e emprego. Airton Zamingnan, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Balsas, argumenta que os ganhos sociais superam os prejuízos ambientais. “Pegamos a região mais pobre do estado mais pobre do Brasil e a transformamos em uma potência. O IDH de Balsas quase dobrou nas últimas décadas”, afirma.
Já o fazendeiro Paulo Antônio Rickli, que vive na região desde os anos 1990, reconhece o avanço do desmatamento. “Passou a boiada. Áreas que nunca poderiam ser desmatadas foram abertas. Falta rigor na fiscalização”, admite.
A “ilusão do desenvolvimento”
Do outro lado da fronteira, lideranças comunitárias e religiosas denunciam o que chamam de “ilusão do progresso”. A ativista Francisca Vieira Paz, da Associação Camponesa do Maranhão, vê o atual modelo agrícola como excludente e insustentável. “O sul do Maranhão foi transformado em zona de destruição. O agronegócio é uma ilusão de desenvolvimento”, critica.

O bispo de Balsas, Dom Valentim de Menezes, reforça a denúncia. Inspirado em Dom Óscar Romero, mártir de El Salvador, ele tem liderado ações pela recuperação do Cerrado, como o projeto de plantio de oito milhões de árvores até 2028. “Não posso frear o agronegócio, mas posso propor outro caminho. A floresta precisa respirar de novo”, afirma.
Governo busca equilíbrio
A Secretaria de Meio Ambiente do Maranhão admite preocupação com o avanço da fronteira agrícola e promete medidas para equilibrar crescimento e sustentabilidade. “O Maranhão concentra quase 50% da água do Nordeste. Proteger nossas nascentes é prioridade”, diz o secretário Pedro Chagas, destacando programas como o Floresta Viva Maranhão, voltado à recuperação de áreas degradadas.
Enquanto o debate segue entre preservação e desenvolvimento, o Cerrado segue sendo o campo de batalha central do futuro ambiental do Brasil. Entre o verde que desaparece e as promessas de prosperidade, as águas de Balsas e do Parnaíba se tornam o termômetro de um país que ainda busca conciliar crescimento e vida.







