Há exatos dez anos, em 5 de novembro de 2015, o Brasil testemunhava um dos maiores desastres socioambientais de sua história. O rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), liberou milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, devastando comunidades inteiras e contaminando o Rio Doce até o Espírito Santo. Uma década depois, o quadrinista João Marcos Mendonça transforma a dor e a memória desse episódio em arte e jornalismo na graphic novel Doce Amargo, lançada pela Editora Nemo.
Com 186 páginas de roteiro e arte do próprio autor, o álbum é uma verdadeira reportagem em quadrinhos, que acompanha, em tom pessoal e documental, o cotidiano dos moradores de Governador Valadares (MG) — uma das cidades atingidas pela lama tóxica que viajou pelo Rio Doce após o colapso da barragem.
João Marcos, que vivia na cidade à época do desastre, faz de sua própria família o fio condutor da narrativa. “Nós estávamos vivendo algo histórico, por isso comecei a fazer um diário”, conta o autor. “O que me despertou foi ver um caminhão do Exército distribuindo água. Era um cenário de guerra.”

Essas anotações pessoais se transformaram em roteiro e desenho, dando origem a uma HQ que revela com sensibilidade e precisão a dimensão humana do desastre. Enquanto a grande imprensa retratava os números e as imagens aéreas da destruição, Doce Amargo mergulha no drama cotidiano — a falta d’água, a morte dos peixes, o cheiro insuportável do rio, as dificuldades para tomar banho ou até usar o banheiro.
Com um traço ágil e influências visíveis de Ziraldo, a obra foi pensada para atingir o público jovem-adulto, sem deixar de ser acessível a leitores de todas as idades. João reconstrói os fatos de forma didática, explicando passo a passo os desdobramentos da tragédia que transformou a rotina de milhares de pessoas.
“Foi difícil reviver tudo aquilo para fazer a HQ. Levei nove anos para finalizar o roteiro”, revela o autor. “Quis mostrar o primeiro ano da crise, o impacto inicial, o que vivemos de fato.”
Ao combinar jornalismo, memória e arte, Doce Amargo se consolida como um testemunho necessário — uma lembrança viva do preço humano e ambiental pago pela negligência, e um alerta sobre a urgência de se repensar a relação entre progresso e responsabilidade ambiental.







