A poucos quilômetros do centro revitalizado de Belém — palco de investimentos e vitrine internacional durante a COP30 — a Vila da Barca desafia o discurso oficial de sustentabilidade ao evidenciar, diariamente, como a crise climática se materializa na vida de quem vive à margem. No centenário bairro de palafitas, às margens da baía do Guajará, cerca de mil famílias enfrentam há décadas a combinação explosiva entre vulnerabilidade socioambiental, racismo estrutural e ausência de políticas públicas efetivas.
A aposentada Cleonice Vera Cruz, de 77 anos, é testemunha viva dessa história. Moradora há quase 60 anos, ela descreve uma rotina marcada por medo e improvisos. As casas de madeira, erguidas sobre estacas para acompanhar a oscilação das marés, balançam ao vento e deixam entrar água por fendas abertas pelo tempo. “Quando dá um vento, a casa sacode. Ontem choveu forte e molhou tudo aqui dentro”, conta.

Na última sexta-feira (14), o risco estrutural virou tragédia: uma casa desabou no meio da madrugada. Quatro moradores — entre eles uma criança e uma pessoa com deficiência — só escaparam porque ouviram os estalos da madeira minutos antes do colapso. Outras famílias das redondezas tiveram as moradias comprometidas e precisaram ser acolhidas por vizinhos.
Enquanto isso, na COP30, líderes mundiais discutiam formas de mitigar a emergência climática. Para quem vive na Vila da Barca, porém, a crise ambiental não é conceito — é cotidiano. “Falam de transição energética, mas pouco de quem mora debaixo da copa das árvores”, afirma Gerson Siqueira, presidente da associação de moradores. “Financiamento climático também deveria incluir moradia digna.”

Racismo ambiental escancarado
Um estudo da Habitat para a Humanidade Brasil, apresentado na conferência, reforça o alerta: 66,58% dos moradores de áreas de risco no país são negros. São mais de 2,1 milhões de casas danificadas por desastres climáticos entre 2013 e 2022, e 107 mil completamente destruídas. Nessas regiões, a renda das famílias — majoritariamente chefiadas por mulheres — chega a ser metade da média local.
A diarista Maria Isabel Cunha, a Bebel, sintetiza esse retrato. Mãe solo de dois meninos, um deles com deficiência, vive de trabalhos eventuais que rendem até R$ 50 por faxina. Depende da pensão do filho e luta para garantir o básico, enquanto observa a região turística vizinha ganhar obras de revitalização no contexto da COP30. “Ficou bonito lá”, comenta, sem esconder a distância entre o brilho da cidade e a realidade da comunidade.

Obras avançam, mas futuro ainda é incerto
A Vila da Barca reúne cerca de 600 palafitas. No fim de julho, Águas do Pará iniciou a instalação de sistemas de abastecimento de água e esgoto, num investimento de R$ 15 milhões. A fase inicial foi concluída, e cada casa agora tem hidrômetro. A taxa social prevista é de R$ 66,42 — ainda não cobrada. A rede de esgoto deve ficar pronta em abril do próximo ano.

Para líderes comunitários, porém, saneamento é apenas parte da solução. “Até quando essas famílias continuarão morando em palafitas?”, questiona Siqueira. “Precisamos garantir permanência com dignidade — com infraestrutura e segurança.”
Cultura resistente em meio ao abandono
Apesar da precariedade, a vida cultural da Vila da Barca pulsa forte. Festas juninas, blocos carnavalescos e a passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré durante o Círio mantêm o sentimento de pertencimento e resistência, simbolizando a força de uma comunidade profundamente enraizada.
Habitação: a pauta ausente da agenda global
Segundo a Habitat Brasil, apenas 8% das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) apresentadas pelos países tratam de questões urbanas e comunidades vulneráveis — justamente onde a crise climática causa mais danos. Para a organização, fortalecer essas populações deve ser prioridade, não justificativa para remoções em massa.
“Defendemos a permanência com adaptação e segurança. Soluções climáticas não podem ser desculpa para expulsar comunidades inteiras”, afirma Raquel Ludermir, gerente de incidência política da ONG.
A Vila da Barca, tão próxima dos debates da COP30 e tão distante de seus efeitos concretos, evidencia a contradição central do encontro: combater a crise climática exige enfrentar, de forma direta, as desigualdades históricas que moldam o território brasileiro. Enquanto isso não acontece, o clima segue mudando — e as vidas mais vulneráveis continuam sendo as primeiras a ruir.







