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Home Entretê Cultura

Arte, bordado e inteligência artificial se encontram em instalação que provoca reflexão em Brasília

Obra “Bordaduras”, de Regina Silveira, ocupa os vidros do Sesi Lab e integra programação do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia

Eliane GervasioPorEliane Gervasio
15 de setembro de 2026
em Cultura
Arte, Bordado E Inteligência Artificial Se Encontram Em Instalação Que Provoca Reflexão Em Brasília - Expresso Carioca

© Joédson Alves/Agência Brasil

Uma instalação que mistura bordado, ilusão de ótica, tecnologia e memória ocupa os vidros do Sesi Lab, em Brasília, e propõe uma reflexão sobre a relação entre criação humana e inteligência artificial. A obra “Bordaduras”, da artista plástica Regina Silveira, de 87 anos, integra a programação do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia (#25.ART), aberto ao público nesta terça-feira (15).

A instalação utiliza um vinil adesivo de aproximadamente 530 metros quadrados, aplicado sobre os vidros do museu. A composição reproduz imagens de agulhas e bordados em ponto de cruz, alguns deles propositalmente inacabados.

A escolha do bordado não é apenas estética. Para Regina, a técnica carrega uma trajetória histórica relacionada à formação e à alfabetização das mulheres, além de fazer parte de seu próprio repertório artístico.

A artista, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP) e com carreira internacional, trabalha há décadas com padrões gráficos e distorções de objetos cotidianos. Na instalação, os pontos incompletos também sugerem algo que ainda está em processo de construção.

Segundo Regina, os bordados presentes em seu trabalho dialogam com padrões gráficos que ela vem explorando desde o início dos anos 2000, inclusive utilizando recursos digitais e diferentes espaços arquitetônicos.

Memória que atravessa gerações

A Agente De Portaria E Costureira, Kaliane Freire - Expresso Carioca
A agente de portaria e costureira, Kaliane Freire, duarnte entrevista para Agência Brasil. Joédson Alves/Agência Brasil

A obra também provocou uma reação pessoal em quem trabalha no museu. A agente de portaria e costureira Kaliane Martins, de 40 anos, reconheceu nas imagens algo familiar.

Nascida no Rio Grande do Norte, Kaliane se mudou ainda criança para Brasília com a mãe. Antes de trabalhar no Sesi Lab, atuou como faxineira. Há quatro anos, passou a trabalhar como agente de portaria no espaço cultural.

Ao observar as agulhas e os bordados representados na instalação, ela se lembrou do que aprendeu com a mãe e a avó.

“Aprendi a bordar com a minha mãe e com a minha avó. Vi as agulhas [da obra] e me fez recordar”, contou.

O bordado fez parte de diferentes momentos de sua vida. Kaliane relata que chegou a produzir roupas para si e para os três filhos adolescentes. A lembrança da atividade manual também aparece como contraponto à rotina contemporânea marcada pelo uso constante das telas.

A reação mostra como a obra pode assumir significados diferentes dependendo da experiência de quem a observa.

Uma obra com provocação feminista

Regina Silveira considera “Bordaduras” uma obra de caráter feminista. A artista relaciona a tradição dos bordados à história das mulheres e aos usos que a técnica recebeu ao longo dos séculos.

A instalação também mantém uma característica presente em parte de sua produção: provocar o público sem determinar uma única interpretação.

“Eu sempre respeito muito a liberdade de interpretação”, afirma a artista.

Agulhas aparecem espalhadas pela composição e são utilizadas também como elementos de ilusão. Para Regina, o público pode construir suas próprias leituras a partir das formas e dos símbolos presentes na obra.

Dentro do Sesi Lab, um painel de LED apresenta “Dígito”, trabalho criado pela artista ainda nos anos 1980. A presença simultânea de uma obra histórica e de uma instalação contemporânea reforça o diálogo entre técnicas, linguagens e tecnologias de diferentes períodos.

Artista Plástica Regina Silveira Estreia Obra No Sesi Lab - Expresso Carioca
Artista plástica Regina Silveira estreia obra no Sesi Lab. – Joédson Alves/Agência Brasil

Quando a inteligência artificial entra na discussão

A instalação faz parte de um encontro que coloca justamente a relação entre arte e tecnologia no centro do debate. O 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia reúne artistas e pesquisadores de diferentes regiões do país e ocorre até domingo (20), no Sesi Lab e no Museu Nacional de Brasília.

Um dos principais temas da programação é a influência da inteligência artificial nos processos de criação artística.

Para Regina Silveira, a IA pode ser utilizada como ferramenta, mas não deve ser confundida com a capacidade humana de criar e estabelecer conexões inesperadas.

A artista afirma que as tecnologias trabalham a partir de repertórios e memórias existentes e podem contribuir para ampliar possibilidades, mas considera que a invenção permanece ligada ao pensamento humano.

Ela também defende que os jovens sejam preparados não apenas para utilizar novas ferramentas, mas para compreender as linguagens que estão por trás delas.

 

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Criatividade humana no centro

A artista e professora Suzete Venturelli, uma das coordenadoras do encontro, também chama atenção para os limites do uso de tecnologias generativas.

Segundo ela, experiências com inteligência artificial podem trazer benefícios, mas é necessário preservar a capacidade humana de criação. A professora cita ainda preocupações relacionadas aos bancos de dados utilizados por sistemas de IA, que podem reproduzir vieses racistas e eurocêntricos.

Para Venturelli, a arte deve manter sua capacidade de questionar a sociedade e também as próprias tecnologias que fazem parte dela.

Nesse sentido, o encontro propõe uma discussão que vai além da ideia de aceitar ou rejeitar a inteligência artificial. A questão passa a ser como utilizar essas ferramentas sem abrir mão da criatividade, da diversidade de perspectivas e da autoria humana.

Arte, tecnologia e ancestralidade

A programação do #25.ART reúne 41 artistas e inclui exposições, palestras, experimentos e atividades presenciais e virtuais. Entre os temas estão ancestralidade, natureza, tecnologias sociais, música africana, tecnodiversidade e inteligência artificial.

Entre os convidados está o líder indígena Casé Angatu Xukuru Tupinambá, que participa de debate sobre as relações entre natureza, arte e tecnologia. O pesquisador Hauke Dorsh aborda tecnologias sociais e a disseminação da música africana, enquanto Ive Rubini apresenta reflexões sobre tecnodiversidade e a importância da multiplicidade de perspectivas.

A programação coloca em contato diferentes formas de conhecimento, aproximando tecnologias digitais de práticas manuais e saberes ancestrais.

Do bordado ao afastamento das telas

A instalação também provocou identificação em outras pessoas que passaram pelo Sesi Lab. O professor de circo tocantinense Gabriel Coelho, de 21 anos, que estava no local praticando malabares, contou que aprendeu com a mãe a costurar e fazer crochê.

Ao observar a imagem dos bordados, lembrou da relação entre o trabalho manual e momentos de afastamento do celular.

A associação resume uma das questões centrais propostas pelo encontro: em meio ao avanço acelerado das tecnologias digitais e da inteligência artificial, práticas aparentemente antigas, como bordar, costurar e criar manualmente, podem ganhar novos significados.

Em “Bordaduras”, Regina Silveira transforma agulhas e pontos de cruz em uma intervenção de grandes dimensões. A obra ocupa a arquitetura, recupera uma técnica tradicional e, ao mesmo tempo, participa de um debate contemporâneo sobre tecnologia, autoria e criatividade.

Mais do que oferecer uma resposta sobre o futuro da inteligência artificial na arte, a instalação deixa uma provocação para quem passa por ela: o que permanece essencialmente humano quando as ferramentas de criação se tornam cada vez mais sofisticadas?

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Tags: BordadoBrasíliaExpresso CariocaInteligência ArtificialNotíciasSesi Lab
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