No coração do Rio de Janeiro, nasce um projeto literário que transforma poesia em instrumento de cura, escuta e resistência. Piracema diVersos, concebido pela professora, atriz e roteirista indígena Lucia Tucuju — do povo Galibi Marworno — propõe um mergulho profundo nas vivências femininas atravessadas pela ancestralidade, pela dor e pela potência do renascimento.
Mais do que o lançamento de um livro, Piracema diVersos é um gesto coletivo de afeto. A obra reúne poemas intensos, escritos em linguagem livre e sensorial, em que o corpo feminino indígena se faz voz — uma voz que grita, canta e acolhe. Ao longo de agosto, o projeto realiza uma série de ações culturais em abrigos e instituições que atendem mulheres em situação de rua e vulnerabilidade social, como a ONG Meninas e Mulheres do Morro, na Mangueira, o Instituto Casa das Pretas e locais no Centro do Rio. Nessas atividades, estão previstas oficinas de escrita poética, rodas de conversa e saraus literários — encontros em que a palavra escrita se transforma em elo para trocas profundas, reconhecimento e reconstrução simbólica.

A autora, ganhadora do Prêmio Jabuti com o coletivo Mulherio das Letras Indígenas, descreve a poesia como extensão do próprio corpo: “Eu escrevo porque o meu corpo fala. E quando o meu corpo fala, ele lembra das minhas avós, das mulheres que vieram antes de mim, das que ainda resistem e das que precisam ser ouvidas. A poesia é o meu modo de gritar e também de oferecer abrigo.”
Com um estilo imagético e repleto de metáforas ligadas à natureza, os poemas abordam temas urgentes como violência, feminicídio, silenciamento e os conflitos internos vividos por mulheres indígenas. Cada verso carrega um rito de passagem, onde a memória e o território se entrelaçam.
O livro será lançado no dia 1º de agosto, às 19h, no espaço cultural Vegan Vegan, em Botafogo (Rua Hans Staden, 30). A publicação foi contemplada pelo edital Pró-Carioca (Linguagens), dentro do Programa de Fomento à Cultura Carioca, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc.
A experiência literária é ampliada pelas ilustrações da artista visual Luciana Grether, professora da PUC-Rio, que trabalhou em parceria com Tucuju em um processo artesanal: folhas, sementes, galhos e tintas se transformaram em imagens que não explicam os poemas, mas caminham com eles. “São desenhos que nascem da terra, da água e do tempo. Eles não explicam os poemas, mas caminham com eles”, diz Grether. O resultado são colagens, desenhos e monotipias que intensificam a atmosfera sensorial da obra.
Com mais de 40 livros ilustrados, Luciana Grether tem reconhecimento nacional e internacional, tendo sido premiada em eventos como o Jabuti e a Bienal de Ilustração de Bratislava. É também responsável pelas ilustrações da abertura da novela Joia Rara, da TV Globo.
Lucia Tucuju, por sua vez, é referência na cena cultural brasileira. Atua como professora de Literaturas Indígenas, participou de festivais como o Fomenta e o Infâncias Plurais (Itaú Cultural), e levou sua arte ao teatro e ao audiovisual, com destaque para o monólogo Arandu – Lendas Amazônicas, apresentado nos CCBBs, e para o filme Ricos de Amor 2, da Netflix.
Piracema diVersos tem como missão chegar onde a literatura raramente alcança. Para Lucia, escrever é também construir pontes: “Eu escrevi esse livro para que mulheres em situação de vulnerabilidade se reconheçam, sintam-se acolhidas e saibam que suas vozes importam. A palavra pode ser uma canoa. E às vezes, tudo que a gente precisa é de alguém que ofereça uma”







