O governo dos Estados Unidos, por meio do representante de Comércio Jamieson Greer, anunciou nesta terça-feira (15) uma investigação oficial sobre práticas comerciais do Brasil, incluindo críticas indiretas ao Pix. A medida, batizada de “Investigação da Seção 301 sobre Práticas Comerciais Desleais no Brasil”, aponta que o sistema de pagamentos eletrônicos criado pelo Banco Central dá vantagem indevida a serviços públicos em detrimento de concorrentes privados — especialmente empresas norte-americanas.
Embora o documento não mencione o Pix diretamente, cita “serviços de pagamento eletrônico do governo” como alvo da investigação.
O que está por trás da investigação?
Especialistas apontam três razões principais para o incômodo dos EUA com o Pix:
- Concorrência com o WhatsApp Pay — Em 2020, o WhatsApp anunciou o Brasil como o primeiro país a receber um serviço de transferências via aplicativo. Dias depois, o Banco Central e o Cade suspenderam o serviço para avaliar riscos e compatibilidade com o sistema financeiro. A decisão teria irritado Washington, já que o WhatsApp pertence à Meta, de Mark Zuckerberg, aliado de Donald Trump.
- Impacto sobre bandeiras de cartão de crédito — O Pix oferece uma alternativa gratuita ou mais barata para consumidores e lojistas, reduzindo o uso de cartões de crédito (dominados por bandeiras americanas). A chegada prevista do Pix parcelado, em 2025, acende ainda mais o alerta, pois permitirá ao brasileiro parcelar compras sem cartão, com liquidez imediata para quem recebe.
- Menor dependência do dólar — O sistema brasileiro já é aceito em comércios de países como Paraguai e Panamá, que recebem em reais através do Pix. Com menos transações passando pelo dólar, a demanda pela moeda americana cai, o que desagrada Washington.
Por que o BC bloqueou o WhatsApp Pay?
Segundo a economista Cristina Helena Mello (PUC-SP), o WhatsApp Pay em 2020 operava fora do sistema financeiro formal, sem integração ao Sistema de Pagamentos Brasileiro nem fiscalização do BC — o que violaria regras de prevenção a fraudes e lavagem de dinheiro. “O Pix, além de mais inclusivo, foi criado desde 2018 para ser neutro e seguro”, explica.
O que dizem os números?
Apesar das críticas, o Pix já movimentou R$ 26,4 trilhões em 2024, com ampla aceitação por pequenos negócios e população de baixa renda. “Promoveu bancarização, inclusão e agilidade. É uma ferramenta eficaz e democrática”, diz Mello.
Próximos passos
A investigação americana é apenas interna, por enquanto, mas pode resultar em retaliações comerciais. Para analistas, as pressões refletem mais os interesses políticos e econômicos dos EUA do que qualquer irregularidade do Pix.







