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	<title>geógrafo negro &#8211; Jornal Expresso Carioca</title>
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		<title>Milton Santos 100 anos: o geógrafo que revelou como o espaço produz desigualdades</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 May 2026 14:21:20 +0000</pubDate>
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<p>O centenário de nascimento de Milton Santos reacende o debate sobre um dos pensamentos mais influentes da geografia contemporânea: a ideia de que o espaço onde vivemos não é neutro, mas resultado direto de escolhas políticas, econômicas e sociais. Nascido em 1926, no interior da Bahia, o intelectual se tornou referência mundial ao construir uma obra que reposicionou o entendimento das cidades, da globalização e das desigualdades.</p>
<p>Ao longo de sua trajetória, Milton Santos rompeu com a visão tradicional da geografia como mera descrição do território. Para ele, ruas, bairros e cidades carregam marcas profundas das relações de poder que estruturam a sociedade. A ausência de saneamento em determinadas regiões, a concentração de serviços em áreas valorizadas e o acesso desigual à infraestrutura não são coincidências, mas consequências de decisões que favorecem grupos específicos.</p>
<h3>Um pensamento moldado pela experiência e resistência</h3>
<p>Negro e oriundo do interior nordestino, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural dentro da academia ao longo de sua carreira. Ainda assim, construiu uma trajetória internacional sólida, com formação na Universidade Federal da Bahia e doutorado na França, além de atuação em universidades da Europa, África e América Latina.</p>
<p>Durante a ditadura militar brasileira, foi forçado ao exílio, período em que ampliou sua produção intelectual e consolidou uma visão crítica sobre o desenvolvimento global. Ao retornar ao Brasil, tornou-se professor em instituições como a UFRJ e a USP, contribuindo decisivamente para a formação de novas gerações de pesquisadores.</p>
<p>Sua trajetória não apenas ampliou os horizontes da geografia, mas também abriu caminhos para intelectuais negros em espaços historicamente excludentes.</p>
<h3>A teoria que explicou a desigualdade nas cidades</h3>
<p>Um dos conceitos mais conhecidos de Milton Santos é a divisão da economia urbana em dois circuitos: o superior e o inferior. O primeiro reúne grandes empresas, tecnologia e capital concentrado; o segundo é formado por pequenos comércios e serviços populares, que sobrevivem com poucos recursos, mas atendem às necessidades da população mais vulnerável.</p>
<p>Essa leitura permite compreender, por exemplo, por que bairros periféricos desenvolvem suas próprias dinâmicas econômicas, com mercados locais, vendas fracionadas e serviços adaptados à realidade de baixa renda. Para o geógrafo, essas formas de organização não são improvisadas, mas respostas diretas à exclusão do sistema formal.</p>
<h3>Globalização e desigualdade: uma crítica pioneira</h3>
<p>Em suas análises sobre globalização, Milton Santos apresentou uma visão crítica ao modelo dominante. Ele argumentava que o processo, frequentemente apresentado como sinônimo de progresso, também amplia desigualdades ao concentrar riqueza e oportunidades em determinadas regiões, enquanto outras permanecem marginalizadas.</p>
<p>O conceito de “meio técnico-científico-informacional” descreve justamente esse fenômeno: áreas altamente conectadas, com tecnologia avançada e infraestrutura eficiente, convivendo com territórios onde faltam serviços básicos. Essa coexistência, segundo ele, revela uma geografia marcada por profundas assimetrias.</p>
<h3>Legado atual e influência global</h3>
<p>Mais de duas décadas após sua morte, em 2001, o pensamento de Milton Santos segue sendo aplicado em pesquisas no Brasil e no exterior. Estudos sobre urbanização, desigualdade e desenvolvimento continuam recorrendo às suas teorias para interpretar realidades contemporâneas, desde grandes metrópoles até economias periféricas.</p>
<p>Seu trabalho também influenciou políticas públicas e reflexões sobre planejamento urbano, ao destacar a necessidade de considerar o território como elemento central na construção da cidadania e na redução das desigualdades.</p>
<h3>Um intelectual que ultrapassou a academia</h3>
<p>Reconhecido internacionalmente, Milton Santos recebeu prêmios de grande prestígio, como o Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia”. Sua obra, traduzida em diversos idiomas, consolidou-o como um dos principais pensadores do século XX no campo das ciências humanas.</p>
<p>Ao completar 100 anos de seu nascimento, o geógrafo permanece atual ao oferecer ferramentas para compreender problemas que ainda marcam o Brasil e o mundo. Seu legado vai além da academia: é uma chave de leitura para entender como o espaço urbano revela — e muitas vezes reproduz — as desigualdades sociais.</p>
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