Em um encontro marcado por reflexões profundas e propostas para o futuro da educação e da leitura no país, autores, bibliotecários e educadores debateram os dados e os impactos da pesquisa “Retratos da Leitura do Brasil”, que acaba de virar livro. A obra reúne artigos de 18 especialistas e foi apresentada com destaque para o impacto da queda no número de leitores, especialmente entre os 5 e 10 anos, faixa etária crucial para a formação do hábito leitor.
A professora e especialista em educação Eliana Iunes chamou a atenção para os problemas que atravessam a escola: “Se o ritmo da educação infantil não fosse abortado pela alfabetização precoce, a leitura não seria uma exigência pesada, e sim um prazer conquistado. É preciso mudar os parâmetros e o próprio conteúdo da escola básica para que a imaginação e a narrativa sejam o ponto de partida do conhecimento”, declarou.

Na mesma linha, Abel, representante das bibliotecas comunitárias, enfatizou que o acesso à literatura precisa ultrapassar os muros da escola e da biblioteca tradicional. “Nosso trabalho é colocar o livro nos lugares onde as pessoas vivem: do bar ao cemitério, da maternidade às ruas. Quando o livro chega junto com a cesta básica, a literatura vira um direito humano, como comer e viver com dignidade”, afirmou, lembrando que as bibliotecas comunitárias têm sido um contraponto ao fechamento de espaços públicos e um ponto de encontro e escuta.
Jorge Padro, da FEBAB, reforçou que as bibliotecas públicas e comunitárias são menos frequentadas do que deveriam — apenas 9% da população brasileira declara utilizar esses espaços — e que o futuro depende da reinvenção desses locais como centros de convivência. “As bibliotecas devem oferecer acesso amplo, acervos diversos e ações que estimulem a troca de experiências. Precisamos repensar a formação de bibliotecários e professores-leitores que saibam mediar essa relação com o livro”, disse.

Outro tema que ganhou força foi o impacto das redes sociais e da internet sobre os hábitos de leitura. Ana Mirtal, pesquisadora do fenômeno dos influenciadores literários, trouxe dados inéditos que apontam que 22% das pessoas têm o primeiro contato com a leitura a partir das redes. “Mas apenas 2% compram os livros que os influenciadores indicam. O consumo de trechos e resenhas, em vez da imersão completa na obra, ameaça o prazer da leitura e o pensamento crítico”, advertiu.
O debate deixou clara a urgência de novas políticas públicas, que incentivem a formação contínua de professores e bibliotecários e reconheçam a literatura como base fundamental para a educação e a cidadania. Como sintetizou Eliana Iunes: “Sem uma mudança de conceito e prática, a redução no número de leitores vai continuar — e o futuro da nossa sociedade depende dessa reviravolta”.







