Enquanto bombas caem sobre Gaza, vozes femininas ecoam do Brasil em resistência. Através das redes sociais, mulheres palestinas e descendentes desafiam estigmas e censura para denunciar o genocídio na Palestina, defender seus direitos e reconstruir identidades. Essa mobilização é tema da tese de doutorado “A trama tecida por mulheres palestinas: relatos biográficos dos usos táticos de tecnologias digitais”, da pesquisadora Simone Munir Dahleh, vencedora do Prêmio Compós 2025.

Simone, que também é descendente de palestinos, ouviu brasileiras de várias profissões — como dentistas, empresárias e estudantes — que usam a internet para romper o silêncio sobre a ocupação israelense, resistir à xenofobia e reforçar laços com a cultura e a história palestinas.
“Se posicionar, mostrar a realidade do conflito é uma necessidade”, afirma a autora. Nas entrevistas, mulheres relatam o medo da censura digital, da retaliação internacional e do antissemitismo ser usado como arma para silenciá-las. Ainda assim, seguem postando conteúdos fortes: vídeos de crianças feridas, depoimentos, imagens da vida em Gaza antes da guerra, músicas e comidas típicas.
Para elas, a tecnologia é mais que ferramenta — é trincheira. Em tempos de bombardeios e desinformação, colocar a cara a tapa virou um ato de coragem e de reconstrução identitária.
“Mostrar a riqueza deste povo, ouvir e difundir os relatos dessas mulheres é um modo de desmistificar a imagem de um grupo retratado como atrasado e oprimido”, defende Simone.

O estudo também destaca como essas mulheres buscam manter os laços com a terra de origem, muitas vezes por meio de pequenas memórias: uma receita, uma canção, uma roupa tradicional. Entre as referências citadas estão figuras como a jornalista Shireen Abu Akleh, assassinada por forças israelenses em 2022, e a líder política Hanan Ashrawi.
Com base em biografias marcadas pela migração e resistência, a pesquisa lança luz sobre o ativismo cotidiano de mulheres que, mesmo longe da Palestina, transformam as redes sociais em território de luta.
A pesquisa foi desenvolvida na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Estima-se que o Brasil tenha cerca de 200 mil brasileiros-palestinos, com grande concentração no Rio Grande do Sul, segundo a Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal).







