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Exatos 30 anos após a montagem de “Pela Noite”, texto de Caio Fernando Abreu, um grupo de atores decide remontar a peça. A estreia do espetáculo, em 1995, foi assistida e aplaudida pelo próprio escritor, que escreveu duas cartas, até agora inéditas, para o diretor, Renato Farias. Para a remontagem, três homens gays que viveram o auge das décadas de 1980 e 1990 são convidados a contar sobre os seus amores interrompidos pela chegada do HIV. Este é o ponto de partida de “O Legado – Um diálogo com Caio Fernando Abreu”, espetáculo inédito escrito e dirigido por Renato Farias para celebrar os 20 anos da Companhia de Teatro Íntimo. Jogando luz sobre o legado que Caio, e a geração que viveu a época em que a AIDS chegou ao Brasil, deixou para as gerações mais jovens, a montagem prioriza o amor e a alegria de viver para contar essas histórias. Aprovado pelo Sesc RJ Pulsar, o espetáculo estreia dia 16 de outubro, às 20h, Teatro de Arena do Sesc Copacabana.
A história encenada é, também, um diálogo entre realidade e ficção. De fato, houve a montagem da peça e a presença de Caio na plateia. “Eu recebi três cartas dele e coloco duas delas em cena para que a voz do Caio abra ‘O Legado’. São as cartas que escreveu quando seguimos nos relacionando após o espetáculo que ele assistiu, meses antes de nos deixar, em fevereiro de 1996”, adianta Renato Farias. Passados 10 anos do encontro com o escritor, em 2005 Renato fundou a Companhia de Teatro Íntimo, encenando o espetáculo “Os Dragões”, uma adaptação de “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso‟, outro texto de Caio Fernando Abreu.
“A estreia de ‘Os Dragões’ foi no palco do Sesc Copacabana, para onde voltamos agora, e retomando o diálogo com Caio, esse escritor que nunca nos abandonou. O tema LGBTQIAPN+ é muito importante para nós. Paralelo ao meu trabalho com o teatro, trabalho com comunicação e saúde na Fiocruz, o que me permitiu contribuir, nos anos 1990 e 2000, com a construção da resposta brasileira à epidemia de HIV-AIDS. O Brasil foi protagonista mundial dessa resposta e isso é uma coisa que pouca gente sabe. Uma outra questão crucial é o fato de que hoje é possível viver e conviver saudavelmente com o HIV, por isso nosso foco no trabalho é celebrar a vida e os amores que tivemos”, pondera Renato.
Dos estigmas que envolveram a doença nos anos 1980, Renato nem quer ouvir falar – mas da relação saudável das pessoas que vivem com HIV, sim. E é nessa busca pelo prazer e a alegria de estar junto, da necessidade de cuidar e ser cuidado, que o dramaturgo e diretor enxerga um legado a ser trazido para as novas gerações. “A peça traz três gerações que se intercalam, e a diferença do impacto do HIV em cada uma. A geração mais velha, que é a minha, em torno dos 60 anos, foi tolhida pela doença e teve que assimilar a necessidade de usar camisinha. A geração seguinte, hoje por volta dos 40/45 anos, já associava sexo e camisinha de maneira mais natural. E a geração atual, felizmente, tem mais liberdade, por que, além do preservativo, e dos avanços com a medicação, tem PrEP e PEP. O HIV já pode, como diz minha amiga Márcia Rachid, ser considerado ‘Uma Sentença de Vida’”, celebra Farias.
O ator Thiago Mendonça, também fundador da Companhia de Teatro Íntimo, lembra: “Nasci em 1980, era uma criança que assistia novela e logo virei fã de Lauro Corona. Ele influenciou diretamente minha escolha em ser ator. Vi o meu primeiro ídolo partir repentinamente, sem, na época, entender por que. Depois, criança, ainda, vi outros artistas como Cazuza e Renato Russo falarem mais abertamente sobre suas sexualidades e sorologias. Madonna também me educou através de suas músicas e entrevistas. Hoje gozo do privilégio de viver em um tempo em que podemos ter mais liberdade e direitos. Isso também é um legado importante das gerações anteriores”, relaciona.
Colocando, lado a lado, o elenco da Companhia e atores convidados, a montagem conta com Alain Catein, Aleh Silva, Dodi Cardoso, Gabriel Contente, João Manoel, Márcio Januário, Orlando Caldeira, Renato Farias e Thiago Mendonça. Os atores interpretam casais de três gerações e a montagem toma cuidados na condução de sua dramaturgia. “Somos homens gay cis em cena, ainda que haja um ator que é não-binárie. No início da epidemia fomos colocados pelo preconceito da sociedade como protagonistas em relação à doença. Ao longo das últimas décadas, assumimos o protagonismo para lutar contra os preconceitos e gritar: nós existimos e queremos ser respeitados! Um legado que propusemos foi, justamente, canalizar esse protagonismo para que a sociedade entenda que pessoas LGBTQIAPN+ também têm relações amorosas e saudáveis”, sublinha Renato.
E foi justamente a permanência dos estigmas um dos motivos que trouxeram o tema à cena. “O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo. Então é um tema que precisa voltar, e o estamos trazendo de uma maneira leve e bem humorada, falando das dores das tristezas das perdas sim, mas também lembrando que amor e sexo são coisas saudáveis, que precisam ser vividas. É uma maneira de tirar a culpa que vem vindo de geração em geração e colocar o prazer e o autoconhecimento através da sexualidade no centro da vida”, pontua Renato, que recentemente lançou o livro “O poema-em-cena & o teatro íntimo: a construção da pedagogia da intimidade” (Ed. Multifoco / https://abre.ai/nBSM) como parte das celebrações dos 20 anos da Companhia.
Falar de legado é convidar o público a pensar na troca realizada entre essas gerações. Mas Renato Farias admite que a temática, que é forte e abrangente, não pode ser resumida a um legado específico. “É um legado de valorização da vida, do amor, da alegria, das relações, das amizades, do permitir ser cuidado e da importância de cuidar. Mas também da importância de ser feliz a partir de sexualidades bem vividas, saudáveis, sem culpa. Isso tudo é o legado de uma geração que teve que conviver brutalmente com a pandemia da AIDS e que foi percebendo que só passamos por aquela fase horrorosa porque estávamos juntos uns dos outros”, encerra.
SERVIÇO
“O Legado – Um diálogo com Caio Fernando Abreu”
Temporada: 16 de outubro a 09 de novembro de 2025
Horário: Quinta-feira a sábado, às 20h. Domingo, às 18h
Local: Arena do Sesc Copacabana
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana – Rio de Janeiro
Ingressos: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia entrada para casos previstos por lei, estendida a professores e classe artística mediante apresentação de registro profissional, convênio e programa Mesa Brasil); R$ 10 (credencial plena); Gratuito (público PCG).
Bilheteria – Horário de funcionamento: Terça a sexta-feira – das 9h às 20h; Sábados, domingos e feriados – das 14h às 20h
Informações: (21) 3180-5226
Classificação Indicativa: 18 anos
Duração: 80 minutos
Instagram: https://www.instagram.com/teatrointimo/







