Uma pesquisa realizada pela Organização Social Poiesis mostrou que as mulheres são protagonistas no cenário literário das periferias paulistas. Entre janeiro de 2024 e junho de 2025, elas representaram 70% do público leitor nas oito unidades das Fábricas de Cultura analisadas — índice superior à média nacional de 61%.
O levantamento abrangeu bibliotecas de Brasilândia, Capão Redondo, Diadema, Iguape, Jaçanã, Jardim São Luís, Osasco e Vila Nova Cachoeirinha e revelou um panorama de diversidade cultural que desafia estereótipos. Nessas prateleiras, os volumes da saga japonesa One Piece e os contos de terror de Junji Ito convivem com clássicos como Dostoiévski, Shakespeare e Virginia Woolf.
Diversidade de vozes e empoderamento feminino
Segundo o estudo, a pluralidade é favorecida pelo modelo de curadoria coletiva das bibliotecas, em que 38% do acervo é renovado mensalmente a partir de sugestões dos frequentadores. Isso amplia a representatividade de autores negros, indígenas e LGBTQIAPN+, com títulos como Rei de Lata, de Jefferson Ferreira, e Olhos d’Água, de Conceição Evaristo, bastante procurados em Osasco e Jaçanã.
O protagonismo feminino também se reflete nas escolhas literárias. Obras como Irmã Outsider, de Audre Lorde, Canção para menino grande ninar, de Conceição Evaristo, e Tudo sobre o amor, de bell hooks, estão entre as mais buscadas. “As narrativas de empoderamento ecoam as realidades dessas leitoras e fortalecem a leitura como ferramenta de transformação social”, avaliou Ifé Rosa, coordenadora Artístico-Pedagógica das bibliotecas.
Entre best-sellers e clássicos
O levantamento mostra ainda que títulos de grande circulação nacional também têm destaque nas periferias, como A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig, e a série Diário de um Banana, de Jeff Kinney. Já nos territórios de Brasilândia, Iguape e Jardim São Luís, os mangás figuram entre os mais retirados.
“O gosto literário não é homogêneo nem previsível. As escolhas revelam interesse por identidade, saúde mental, filosofia e política, ao mesmo tempo em que valorizam narrativas contemporâneas e de representatividade”, destacou Izaias Junior, analista Artístico-Pedagógico Sênior das Fábricas de Cultura.
Espaços de leitura e comunidade
Mais do que bibliotecas, as Fábricas de Cultura funcionam como centros culturais gratuitos que conectam literatura, oficinas criativas, rodas de conversa e debates às vivências cotidianas. Em parceria com escolas públicas, CCAs, CAPS e coletivos locais, os espaços ampliam o acesso ao livro e fortalecem a leitura como linguagem de desenvolvimento pessoal e comunitário.
“Esses equipamentos reafirmam o direito ao acesso à cultura, rompem barreiras simbólicas e mostram que a periferia não apenas consome, mas também produz literatura e pensamento crítico”, concluiu Ifé Rosa.







