Está nas livrarias a obra “Teatro Experimental do Negro: testemunhos e ressonâncias”, organizada originalmente por Abdias do Nascimento, em 1966, e agora recuperada e ampliada pela socióloga Elisa Larkin Nascimento e pelo gestor cultural Jessé Oliveira. O livro revisita a trajetória e a importância histórica do Teatro Experimental do Negro (TEN), marco fundamental na luta por protagonismo negro nas artes cênicas brasileiras.
Abdias do Nascimento (1914–2011) foi uma das figuras mais influentes da cultura e do pensamento negro no Brasil. Artista plástico, dramaturgo, ator, escritor, poeta, professor universitário, economista, ativista político, deputado federal e senador, ele dedicou sua vida à defesa da liberdade, da igualdade racial e da transformação social.
Lançada em novembro, durante a última primavera, a nova edição celebra os 80 anos de fundação do TEN, criado em outubro de 1944. A publicação é uma parceria entre a Edições Sesc e a Editora Perspectiva, com 328 páginas que reúnem textos históricos, análises críticas e registros visuais inéditos.
Entre os autores presentes na obra estão nomes como Nelson Rodrigues, o poeta Efrain Tomás Bó e os cientistas sociais Guerreiro Ramos e Florestan Fernandes. O livro também inclui um ensaio fotográfico de José Medeiros, com imagens em preto e branco do elenco do TEN, oferecendo um valioso registro visual da companhia.
Protagonismo negro no teatro brasileiro
Criado menos de 60 anos após a abolição da escravidão, o Teatro Experimental do Negro tinha como objetivo central valorizar a herança cultural afro-brasileira, contar histórias a partir da perspectiva negra e garantir espaço a autores e atores historicamente marginalizados. Entre 1945 e 1958, o TEN encenou mais de 20 espetáculos, nacionais e internacionais, e revelou talentos como Léa Garcia e Ruth de Souza.
“Quem definia os temas das peças, os textos e o rumo das atuações eram as pessoas negras”, destaca Jessé Oliveira. “O Teatro Experimental do Negro é um divisor de águas. Ele amplia o debate sobre as questões raciais e estabelece o profissionalismo de uma companhia teatral negra no Brasil.”
Para Elisa Larkin Nascimento, o TEN cumpre um papel decisivo ao conectar o teatro moderno ao contemporâneo no país. Segundo ela, o grupo apresentou uma visão da sociedade brasileira distinta do discurso oficial e da ideia de “democracia racial” defendida por parte da intelectualidade da época.
A nova edição mantém o propósito da publicação original: registrar de forma consistente a história do TEN e combater o apagamento de sua importância. “Nas escolas de teatro, muitos alunos sequer conhecem o Teatro Experimental do Negro, mesmo estudando a história do teatro brasileiro”, lamenta Elisa.
Ao revisitar as concepções de Abdias do Nascimento, o livro evidencia como suas ideias seguem vivas em práticas cênicas e coletivos atuais, reafirmando o teatro como espaço de resistência, memória e construção de uma arte verdadeiramente antirracista.







