A LIGA-RJ, entidade representativa das escolas de samba da Série Ouro, divulgou uma Nota Oficial manifestando discordância e profunda preocupação com o atual modelo de organização e credenciamento previsto para o Carnaval 2026 no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Segundo a liga, o sistema adotado promove exclusões injustificáveis e ameaça a essência popular da maior manifestação cultural do país.
De acordo com o documento, as agremiações não concordam com um formato que, na prática, impede o acesso de sambistas, dirigentes, trabalhadores do Carnaval e veículos de imprensa especializados, enquanto libera centenas de credenciais para influenciadores digitais, convidados sem vínculo com o samba e pessoas próximas a figuras influentes. Para a LIGA-RJ, o modelo afasta justamente aqueles que constroem, sustentam e preservam o Carnaval ao longo de décadas.
A nota ressalta a indignação das escolas diante da exclusão de segmentos historicamente ligados ao samba, como a imprensa carnavalesca independente, fotógrafos, comunicadores populares e integrantes das próprias agremiações. Em contrapartida, pessoas sem relação com a cultura do samba estariam circulando livremente em um espaço público que pertence ao povo.
Outro ponto central do posicionamento é a crítica à progressiva elitização do Carnaval. A LIGA-RJ afirma que o atual modelo contraria a natureza popular da festa, tornando o acesso cada vez mais restrito às comunidades e ao verdadeiro sambista. A entidade também questiona a proibição de entrada do público com alimentos e bebidas, que obriga o consumo de produtos de uma única marca, caracterizando, segundo a nota, um monopólio em espaço público e reforçando a lógica de exclusão social.
A liga chama atenção ainda para o caso envolvendo o GRES Unidos do Porto da Pedra. Segundo o comunicado, a escola, integrante da Série Ouro e de grande relevância no cenário carnavalesco, solicitou formalmente a aquisição de um camarote no Sambódromo, demonstrando disposição para arcar com todos os custos, mas teve o pedido negado sem qualquer justificativa técnica, administrativa ou contratual. Para a LIGA-RJ, o episódio evidencia tratamento discriminatório entre as agremiações, fere o princípio da isonomia e configura restrição arbitrária de acesso a um bem público.
Diante desse cenário, a entidade defende a revisão do contrato de concessão do Sambódromo, alegando que seus efeitos práticos vêm gerando desequilíbrios, privilégios e exclusões incompatíveis com a natureza pública da Marquês de Sapucaí. A nota também propõe que o credenciamento passe a ser realizado de forma separada por cada liga, respeitando a autonomia dos grupos, com validade restrita aos dias de seus respectivos desfiles. A medida permitiria que as escolas da Série Ouro credenciassem sambistas, profissionais e veículos de imprensa carnavalesca que tiveram seus pedidos negados.
O documento reforça que a Administração Pública deve observar os princípios constitucionais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, garantindo tratamento isonômico entre as ligas e evitando qualquer tipo de favorecimento ou subordinação indevida em um espaço público.
A LIGA-RJ esclarece que a nota não tem o objetivo de atacar ou desqualificar instituições, mas de tornar público um posicionamento construído de forma democrática, após plenária realizada em 21 de janeiro de 2026, com deliberação coletiva e soberana dos presidentes e representantes das escolas da Série Ouro.
Por fim, a entidade reafirma confiança, respeito institucional e total apoio à RIOTUR, reconhecendo o papel fundamental do órgão na organização do Carnaval e expressando a expectativa de que sua atuação seja decisiva para corrigir distorções, garantir isonomia e recolocar o povo no centro do espetáculo.
Unidas, as escolas da Série Ouro encerram o posicionamento com um princípio considerado inegociável: o Carnaval é do povo, para o povo, e deve permanecer fiel às suas raízes populares.
Em 2024, já alertávamos para os bastidores da Sapucaí
Em 2024, este veículo já havia denunciado publicamente uma série de problemas enfrentados pela imprensa durante o Carnaval do Rio de Janeiro, especialmente no funcionamento da sala de imprensa da Marquês de Sapucaí. Na ocasião, chamamos atenção para práticas que comprometiam a liberdade de cobertura jornalística, como restrições de visibilidade, estrutura inadequada, distribuição desigual de credenciais e privilégios concedidos a influenciadores em detrimento de profissionais da comunicação.
Relatamos episódios de censura velada, com janelas gradeadas que impediam a visualização plena dos desfiles, ausência de condições básicas para jornadas exaustivas de trabalho e critérios pouco transparentes na concessão de coletes de acesso à pista. Enquanto jornalistas eram submetidos a rodízios confusos ou simplesmente barrados, outros circulavam livremente por proximidade com a organização, evidenciando desequilíbrio e favorecimento.
Os fatos narrados em 2024 não eram casos isolados, mas sinais de um modelo que já apontava para a elitização do Carnaval e o afastamento de quem historicamente registra, analisa e preserva a memória da festa. À luz da Nota Oficial agora divulgada pela LIGA-RJ, fica evidente que as preocupações levantadas à época se aprofundaram, reforçando a urgência de revisão dos critérios, respeito à imprensa e defesa do caráter democrático do maior espetáculo cultural do país.
Desrespeito à Imprensa: A Liesa e o lado podre do maior Carnaval do Mundo
Leia a Nota Oficial:
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