No Mês do Orgulho LGBTQIA+, ativistas e especialistas alertam: o envelhecimento da população brasileira, embora crescente, não ocorre de forma igualitária. Para pessoas LGBTQIA+, a terceira idade chega marcada por vulnerabilidades específicas, mas também com orgulho de quem resistiu a múltiplas formas de opressão.
“Envelhecer não é morrer, é viver cada dia mais”, afirma Dora Cudignola, 72 anos, presidente da EternamenteSOU, associação criada em São Paulo para acolher idosos LGBTQIA+. Dora, que se define como uma “idosa lésbica e atrevida”, defende a criação de instituições de longa permanência específicas para essa população, com acolhimento digno e comunitário.
Apesar de avanços, o sistema de saúde ainda não está preparado para as demandas da velhice LGBTQIA+. “Muitos profissionais não sabem como lidar com a nossa identidade. O atendimento precisa ser qualificado e respeitoso”, reforça Dora.
Em carta aberta divulgada recentemente, o gerontólogo Diego Felix Miguel, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em São Paulo, destacou a urgência de políticas públicas que garantam segurança, cuidado e dignidade para idosos LGBTQIA+. “Muitas dessas pessoas, ao dependerem de cuidados em instituições, são forçadas a esconder quem são, retornando para o armário”, lamenta.
Dados preliminares de sua pesquisa indicam baixa capacitação de profissionais em instituições de longa permanência, muitas delas vinculadas a valores religiosos que reforçam preconceitos. Além do tratamento discriminatório, há a possibilidade de agressões vindas de familiares ou de outros residentes.
O geriatra Milton Crenitte, pesquisador da Faculdade de Medicina da USP e apoiador da EternamenteSOU, lembra que a atual geração LGBTQIA+ idosa resistiu à ditadura, à epidemia de HIV e a uma vida de exclusão. Ele alerta que solidão e isolamento social, muito comuns nesse grupo, impactam diretamente na saúde, aumentando riscos de demência, doenças crônicas e até morte precoce.
“Solidão mata. A comunidade LGBTQIA+ envelhece mais isolada e com mais medo: de morrer sozinha, de ser discriminada no fim da vida”, explica Crenitte.
Cada letra da sigla LGBTQIA+ também enfrenta desafios específicos. Pessoas trans, por exemplo, envelhecem marcadas pela exclusão histórica do acesso à saúde, educação e emprego. Mulheres lésbicas realizam menos exames preventivos, como mamografia e papanicolau, e homens gays sofrem com a pressão estética e, muitas vezes, recorrem a procedimentos de risco para manter padrões de beleza.
Bruna Benevides, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), denuncia que a negligência médica aos corpos trans atravessa toda a vida. “Na velhice, esse abandono se transforma em dores físicas, doenças não tratadas e saúde mental devastada. Envelhecemos de forma altamente precária, muitas vezes sem documentos retificados e sem acesso pleno à saúde”, afirma.
A Antra reivindica políticas de saúde transespecíficas e formação adequada dos profissionais, com foco não só técnico, mas também humanitário. “Ainda somos vistos como patologia, não como sujeitos de direitos com trajetória e futuro”, denuncia Bruna.
Para especialistas, envelhecer com dignidade é um direito humano fundamental. “Só teremos um futuro digno para todos se o envelhecimento for, para todas as pessoas, um processo com direitos e qualidade”, conclui Crenitte.







