A tensão humanitária na Faixa de Gaza voltou a crescer nesta segunda-feira (28), quando Israel anunciou ter permitido a entrada de 120 caminhões de ajuda no território palestino no domingo (27). O Hamas, entretanto, contestou os números, afirmando que apenas 73 veículos chegaram efetivamente e que boa parte dos mantimentos foi saqueada antes de alcançar os centros de distribuição.
O órgão israelense Cogat, ligado ao Ministério da Defesa, informou que “os alimentos transportados por mais de 120 caminhões foram recebidos e distribuídos pela ONU e por organizações internacionais em Gaza”. A região enfrenta níveis “alarmantes” de desnutrição, segundo alertas recentes das Nações Unidas e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Hamas, por sua vez, alegou que a operação foi insuficiente e mal gerida. De acordo com o grupo, parte dos suprimentos foi perdida durante o trajeto, sob vigilância de drones israelenses, e três lançamentos aéreos adicionais equivaleram apenas a dois caminhões de alimentos, caindo em áreas de conflito inacessíveis à população civil.
Israel declara pausa humanitária; ONU alerta para uso da fome como arma
Ontem, Israel anunciou uma pausa diária nos combates em regiões específicas — Al-Mawasi, Deir al-Balah e a cidade de Gaza — válida das 10h às 20h (horário local), além de rotas seguras operando das 6h às 23h. Segundo o governo de Benjamin Netanyahu, a medida busca “refutar falsas alegações de fome deliberada”.
Na Cúpula da ONU sobre Sistemas Alimentares, realizada na Etiópia, o secretário-geral António Guterres declarou que “a fome nunca deve ser usada como arma de guerra”, citando diretamente os conflitos em Gaza e no Sudão. Dados da OMS indicam que, desde o início de 2025, 74 palestinos morreram por desnutrição, sendo 63 somente neste mês — entre eles, 25 crianças.
Conferência da ONU debate solução de dois Estados
Enquanto a crise humanitária persiste, a sede da ONU em Nova York recebe uma conferência internacional para discutir um roteiro que leve à criação de um Estado palestino coexistindo pacificamente com Israel. O encontro, co-presidido por França e Arábia Saudita, ocorre nesta segunda e terça-feira (29) e foi adiado anteriormente devido à escalada da guerra.
O ministro francês Jean-Noel Barrot declarou que o país pretende reconhecer oficialmente o Estado palestino em setembro, durante a Assembleia Geral da ONU. O presidente Emmanuel Macron já havia sinalizado a medida, que deve ser acompanhada de um apelo para que outras nações façam o mesmo.
Os EUA e Israel não participam da conferência. Washington classificou o evento como “um presente para o Hamas”, enquanto Israel afirmou que a reunião não prioriza a devolução de reféns nem condena adequadamente o grupo extremista.
Histórico do conflito e papel da ONU
A ONU tem sido peça central na questão palestina desde 1947, quando aprovou a divisão da Palestina para criar dois Estados. Desde a guerra árabe-israelense de 1948 até os Acordos de Oslo, em 1993, inúmeras resoluções e tentativas de paz foram feitas, mas a criação de um Estado palestino plenamente reconhecido nunca foi concretizada.
Em maio de 2024, a Assembleia Geral da ONU aprovou por ampla maioria a candidatura da Palestina a membro pleno da organização, após veto dos EUA no Conselho de Segurança. Atualmente, os palestinos reivindicam territórios na Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza, áreas ocupadas por Israel desde 1967.
Desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou 1,2 mil israelenses e fez 250 reféns, a ofensiva militar de Israel já deixou quase 60 mil palestinos mortos, segundo autoridades de saúde de Gaza.







