Um estudo desenvolvido na Universidade Federal Fluminense (UFF) aponta que as histórias em quadrinhos — especialmente as graphic novels — podem ser ferramentas eficazes para ampliar o debate sobre racismo na formação de futuros professores. A pesquisa é da doutoranda e professora Fernanda Pereira da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano.
Fã de HQs desde a infância, Fernanda decidiu investigar como esse formato narrativo, que combina texto e imagem em histórias mais longas e completas, pode contribuir para fortalecer a educação antirracista. A tese, intitulada Cotidiano, escola e Graphic novel: O papel da mídia no fortalecimento da Educação para Relações Étnico-Raciais, foi orientada pela professora Walcéa Barreto Alves, da Faculdade de Educação da UFF.
Debate restrito a novembro
Durante o trabalho de campo realizado no Colégio Estadual Júlia Kubitschek, com estudantes do segundo ano do ensino médio — dos quais 95% eram negros —, a pesquisadora constatou que o debate sobre racismo costuma se concentrar apenas no mês de novembro, em função do Dia da Consciência Negra. Ao longo do restante do ano letivo, o tema praticamente desaparece do planejamento escolar.
Segundo a pesquisa, não há organização sistemática para tratar da questão racial nas escolas, apesar de os próprios estudantes relatarem vivências cotidianas de discriminação, tanto fora quanto dentro do ambiente escolar.

Outro dado preocupante citado no estudo é o descumprimento da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana. Levantamento do Geledés Instituto da Mulher Negra em parceria com o Instituto Alana indica que 71% dos municípios brasileiros não aplicam a legislação. Entre as justificativas apresentadas por docentes está a percepção de que o tema seria “polêmico” ou difícil de abordar.
Para Fernanda, essa visão precisa ser superada. “Faz parte da nossa história”, defende.
Graphic novels como estratégia pedagógica
A pesquisa ganhou impulso em 2018, quando obras com heróis negros passaram a integrar o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). A partir disso, Fernanda passou a investigar como esse material poderia ser inserido na formação inicial de professores, estimulando a continuidade do debate antirracista ao longo da carreira docente.
Entre as possibilidades apontadas está o uso de HQs para apresentar trajetórias como a da escritora Carolina Maria de Jesus, promovendo discussões sobre desigualdade, protagonismo negro e educação antirracista de forma mais acessível e envolvente.
A orientadora da pesquisa destaca que o diferencial do trabalho foi ir além da teoria. A pesquisadora realizou uma prática interventiva, colocando as graphic novels em circulação entre os estudantes e observando suas reações, percepções e reflexões.
Perspectiva decolonial e protagonismo
Um dos pontos centrais da tese é a necessidade de apresentar personagens negros e indígenas como protagonistas, rompendo com uma tradição didática marcada por visões colonialistas, nas quais essas populações aparecem de forma secundária ou estereotipada.
Segundo Walcéa Barreto Alves, as HQs permitem trabalhar o tema com leveza e profundidade ao mesmo tempo. Os recursos visuais e a organização textual facilitam a leitura e ampliam a compreensão, possibilitando desdobramentos em diferentes disciplinas.
A proposta, portanto, não é restringir o debate a datas comemorativas, mas incorporá-lo ao planejamento pedagógico ao longo de todo o ano letivo. Para as pesquisadoras, as histórias em quadrinhos podem ser um caminho potente para tornar o enfrentamento ao racismo mais presente, acessível e transformador dentro e fora da escola.







