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O tempo foi o verdadeiro protagonista nesta noite (25), quando Gilberto Gil subiu ao palco da Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, para apresentar o espetáculo “Tempo Rei”, parte de sua última turnê. Em pouco mais de duas horas e meia, o público carioca foi conduzido por uma viagem musical que mesclou passado, presente e futuro, traduzindo em canção a própria essência de uma das maiores figuras da música brasileira.

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Sem excessos, mas com uma precisão e delicadeza que só Gil domina, o show foi marcado pela harmonia entre o som e a imagem. Painéis de LED cobriam o fundo, projetando cenas da trajetória do cantor — dos tempos da Tropicália aos dias atuais. No centro, um vórtex de luz simbolizava a conexão entre o terreno e o espiritual, elemento que sintetizava o conceito da turnê: o tempo como uma entidade viva e circular.
Quando Gil entoou “Tempo Rei”, o público compreendeu o sentido do título. Era uma celebração e, ao mesmo tempo, uma despedida — uma forma de agradecer, em ritmo e verso, por seis décadas dedicadas à arte. Com a voz firme e o sorriso sereno, o artista reafirmou a grandeza de quem jamais desafinou nem no palco, nem na vida.
Uma noite de encontros e homenagens
A emoção se intensificou com as participações especiais da cantora Iza e do sambista Zeca Pagodinho. Iza dividiu o palco com Gil em “Não Chore Mais” uma versão em português da música “No Woman, No Cry” de Bob Marley, imprimindo sua potência vocal e reverência ao mestre. Já Zeca trouxe o samba para o centro da celebração ao cantar “Aquele Abraço”, em uma das cenas mais vibrantes da noite.

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Entre uma canção e outra, Gil compartilhava breves reflexões sobre o tempo e a passagem da vida, sem discurso, apenas com a sabedoria simples de quem viveu tudo com intensidade e leveza. Em “Se Eu Quiser Falar com Deus”, o silêncio da arena contrastou com a explosão de alegria logo depois, quando vieram “Toda Menina Baiana” e “Esperando na Janela”, momentos em que a plateia se levantou, cantando e dançando como em uma grande comunhão.
A força da família e da música
Acompanhado pelos filhos Bem e José Gil na direção musical, além de netos e outros familiares na banda, o artista transformou o palco em um verdadeiro encontro de gerações. O repertório, cuidadosamente escolhido, percorreu todas as fases da carreira — do tropicalismo ao samba-reggae, passando pelas canções políticas, espirituais e amorosas que moldaram a identidade cultural do Brasil.

A direção artística de Rafael Dragaud e o projeto cenográfico criaram um espetáculo visualmente sofisticado, mas emocionalmente acessível. Tudo parecia dialogar com o público em sintonia perfeita: som, luz, palavra e presença.
A despedida que se transforma em eternidade
“Tempo Rei” é mais que um show: é um rito de passagem. Gilberto Gil, o cantor, o ministro, o imortal da Academia Brasileira de Letras, o doutor honoris causa, o tropicalista e o patriarca, reuniu todas as suas versões em um mesmo espaço-tempo.
O espetáculo de ontem foi o primeiro de dois na capital fluminense — o segundo ocorre neste sábado (26). A turnê, que já percorreu o país e o exterior, segue agora para Fortaleza, Recife, Salvador e Belém, encerrando uma jornada que mais parece um agradecimento coletivo.
Gilberto Gil mostrou que o tempo, de fato, é rei — e que sua música, feita de sabedoria e ternura, continuará reinando sobre as próximas gerações.







