As celebrações de fim de ano, marcadas por shows pirotécnicos, podem ser sinônimo de sofrimento para parte da população e da fauna. Os fogos de artifício com estampido causam sérios danos a animais domésticos, silvestres e até mesmo a pessoas com alta sensibilidade auditiva, como autistas e outras condições sensoriais. Além de desconforto, o ruído pode provocar acidentes, convulsões e até mortes.
Especialistas destacam que o alcance auditivo superior dos animais amplifica o impacto dos sons. Cães, por exemplo, percebem ruídos em frequências muito mais altas que humanos, interpretando os estrondos como ameaças iminentes. Gatos, por sua vez, apresentam reações mais sutis, como esconderijos prolongados ou alterações comportamentais.
“A audição sensível dos animais amplifica o sofrimento causado pelos fogos. Muitos entram em pânico, tentam fugir e acabam se ferindo gravemente. Casos de colapsos fatais não são incomuns”, explica o veterinário Neander Oíbio.
O problema também afeta aves, que podem perder a orientação de voo, chocar-se contra obstáculos e abandonar ninhos, além de animais rurais, como cavalos e bovinos, que entram em desespero diante dos estampidos.
Pessoas com alta sensibilidade
Para pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) ou transtornos sensoriais, os fogos podem ser igualmente perturbadores. Mila Guimarães, autista diagnosticada com nível 2, relata como o barulho a desnorteia: “Os fogos me causam ansiedade extrema e até crises que me levaram ao hospital. Adaptações são necessárias para respeitar quem sofre com os ruídos”.
A médica psiquiatra Ana Aguiar, também autista, reforça que o impacto varia em intensidade. “Para algumas pessoas, o estampido pode causar cefaleia, desorientação e até sensações físicas intensas, como agulhadas na cabeça. É essencial prever essas situações e buscar métodos de proteção”, sugere.
Legislação e campanhas
Diversos estados e municípios brasileiros já proibiram o uso de fogos de artifício com estampidos acima de determinados níveis. No Distrito Federal, uma lei de 2020 restringe a comercialização e uso de artefatos com ruídos superiores a 100 decibéis. No âmbito nacional, o Senado aprovou um projeto de lei para proibir fogos barulhentos em todo o país, que agora aguarda votação na Câmara dos Deputados.
Enquanto mudanças legislativas avançam, campanhas como a do Instituto Cultural e do Bem-Estar Animal (ICBEM) promovem o uso de fogos silenciosos, que mantêm o espetáculo luminoso sem os danos causados pelo som.
Orientações para proteção
Para minimizar os impactos, especialistas recomendam preparar ambientes seguros para animais e pessoas sensíveis. Para pets, espaços tranquilos com cobertores ou música relaxante ajudam a reduzir o estresse. Faixas de compressão e medicamentos também podem ser úteis em casos mais graves.
Para humanos, a utilização de fones de ouvido com cancelamento de ruído ou tampões auriculares pode ser uma alternativa eficaz. “Preparação é essencial. Saber quando e onde os fogos serão usados ajuda a se proteger melhor”, conclui a psiquiatra Ana Aguiar.
Fogos silenciosos representam uma solução inclusiva, preservando a beleza das celebrações sem comprometer o bem-estar de animais e pessoas.







