Pelas ruas de Belém, sob a luz simbólica das tradicionais porongas, centenas de extrativistas de diferentes biomas brasileiros marcharam na tarde desta quinta-feira (13) para reivindicar reconhecimento e protagonismo nas políticas climáticas globais. O ato, batizado de Porongaço dos Povos da Floresta, reuniu seringueiros, castanheiros, ribeirinhos, pescadores artesanais, quebradeiras de coco e outras comunidades tradicionais, reforçando o papel estratégico dessas populações na proteção de ecossistemas vitais.
A mobilização ocorreu paralelamente às negociações da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que acontece na capital paraense. Entoando o lema “a morte da floresta é o fim da nossa vida”, os participantes defenderam a inclusão formal dos territórios extrativistas nas metas de mitigação e adaptação climática do Brasil.
A força simbólica da poronga
A marcha iluminou Belém ao fim da tarde graças às porongas — lamparinas usadas por seringueiros para se deslocar pela floresta. O objeto, que virou símbolo da luta do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), remete à resistência histórica liderada por Chico Mendes, nos anos 1970 e 1980, contra grileiros e a exploração predatória da Amazônia.
“Se a floresta não está bem, nós não estamos bem”, afirmou Letícia Moraes, vice-presidente do CNS e moradora da Ilha do Marajó. Para ela, os territórios tradicionais são extensão direta da vida de seus povos. “A relação de cuidado existe porque nascemos e vivemos aqui. Não nos sentimos donos, mas parte da floresta.”
Territórios que estocam carbono e mantêm a vida
Dados do CNS mostram que reservas extrativistas e projetos agroextrativistas protegem mais de 42 milhões de hectares, cerca de 5% do território nacional. Esses biomas armazenam aproximadamente 25,5 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, o que representa onze anos das emissões totais brasileiras — um volume decisivo para o equilíbrio climático.
Na COP30, as comunidades extrativistas são representadas por Joaquim Belo, enviado especial do movimento. Ele atua diretamente nas negociações internacionais para garantir que os serviços ecossistêmicos prestados por essas populações sejam reconhecidos como ações essenciais para enfrentar a crise climática.
“Nós somos parte da solução”, destacou.
Documento entregue a Marina Silva
A marcha teve início na Praça Eneida de Moraes e terminou na Aldeia Cabana, no bairro Pedreira, onde as lideranças entregaram um documento oficial à ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.
A carta exige que reservas extrativistas, reservas de desenvolvimento sustentável e demais territórios tradicionais sejam incorporados à NDC brasileira (Contribuição Nacionalmente Determinada) e aos tratados climáticos nacionais e internacionais. O texto solicita ainda investimentos contínuos e estruturados para proteção territorial, gestão comunitária e incentivo a práticas sustentáveis.
A ministra e a memória de Chico Mendes
No discurso aos extrativistas, Marina Silva resgatou sua própria trajetória como seringueira no Acre e reforçou a importância desses grupos como guardiões da floresta.
“A tecnologia dos povos da floresta é o próprio modo de vida”, afirmou. “Indígenas, ribeirinhos, seringueiros e quebradeiras de coco protegem biodiversidade, sequestram carbono e mantêm vivo o coração do planeta. Mas é preciso ampliar políticas públicas.”
O Porongaço encerrou-se como um dos atos mais simbólicos da COP30, destacando que a transição climática justa só será possível com o reconhecimento daqueles que há gerações mantêm a floresta em pé — não apenas como território, mas como parte inseparável de suas próprias vidas.







