O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter inaugurado uma “era de ouro da América” durante seu discurso anual do Estado da União, realizado nesta terça-feira (24) no Capitólio. A declaração ocorreu em meio a um cenário politicamente delicado, marcado por queda nos índices de aprovação e crescente insatisfação popular às vésperas das eleições de meio de mandato, previstas para novembro.
Diante de parlamentares republicanos apreensivos com a possibilidade de perda da maioria no Congresso, Trump concentrou a primeira parte de sua fala na economia. O presidente afirmou ter desacelerado a inflação, impulsionado o mercado de ações a níveis recordes, promovido cortes tributários relevantes e reduzido o preço de medicamentos.
Apesar do tom otimista, dados recentes indicam desaceleração econômica no último trimestre e nova pressão inflacionária. Pesquisas de opinião apontam que apenas 36% dos norte-americanos aprovam sua condução da economia — um dos principais eixos de sua campanha e de sua retórica política.
Congresso dividido e protestos democratas
O discurso foi recebido com aplausos entusiasmados da bancada republicana, enquanto dezenas de cadeiras do lado democrata permaneceram vazias. Parte dos parlamentares optou por participar de manifestações do lado de fora do Capitólio.
Durante o pronunciamento, Trump adotou postura mais disciplinada do que em ocasiões anteriores, mantendo-se majoritariamente fiel ao roteiro preparado. Ainda assim, não deixou de exibir seu estilo combativo ao abordar imigração, tema central de sua plataforma política.
Ao criticar os democratas por resistirem ao financiamento do Departamento de Segurança Interna sem mudanças nas diretrizes de atuação migratória, o presidente trocou acusações com congressistas oposicionistas. A deputada Ilhan Omar o confrontou verbalmente durante a sessão, em meio a referências a mortes envolvendo agentes federais.
Outro episódio de tensão ocorreu quando o deputado Al Green foi retirado do plenário após exibir um cartaz crítico ao presidente, em referência a um vídeo polêmico envolvendo o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama. A Casa Branca posteriormente removeu o conteúdo das redes sociais.
Economia e custo de vida sob pressão
Embora Trump tenha declarado que a inflação estaria “caindo vertiginosamente”, os preços de alimentos, moradia, seguros e serviços públicos permanecem elevados em comparação aos anos anteriores. Analistas observam que a percepção popular sobre o custo de vida continua sendo um dos principais desafios da atual administração.
O presidente também criticou decisões recentes da Suprema Corte que limitaram sua política tarifária, classificando o julgamento como “lamentável”, mas minimizando seus impactos práticos.
Política externa com lacunas
Em relação à política internacional, Trump dedicou menos tempo do que o esperado a temas estratégicos. Ele reiterou, sem detalhar, que teria “encerrado” oito guerras — afirmação vista por especialistas como imprecisa — e praticamente não mencionou a guerra na Ucrânia, mesmo no marco de quatro anos da invasão russa.
A China, principal rival econômico dos Estados Unidos, tampouco foi abordada de forma significativa. Sobre o Irã, Trump declarou preferir uma solução diplomática, mas reafirmou que não permitirá que o país desenvolva armas nucleares.
“Minha preferência é resolver isso por meio da diplomacia. Mas nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo do mundo tenha arma nuclear”, afirmou.
Eleições no horizonte
Com todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados e cerca de um terço do Senado em disputa nas eleições de novembro, o discurso teve forte caráter eleitoral. Democratas trabalham para reconquistar o controle das duas Casas legislativas, enquanto republicanos buscam preservar sua maioria.
O pronunciamento deixou claro que Trump pretende sustentar sua narrativa de retomada econômica e endurecimento migratório como pilares centrais de sua campanha política. Resta saber se a “era de ouro” proclamada pelo presidente encontrará eco em um eleitorado que demonstra sinais crescentes de ceticismo.







