A crescente demanda da China por ejiao — gelatina medicinal feita com a pele de jumentos — está levando esses animais a um colapso populacional no Brasil. Segundo dados apresentados no 3º Workshop Jumentos do Brasil, que acontece em Maceió, o país já perdeu 94% de seu rebanho de asininos desde 1996. Se nada for feito, especialistas alertam que a espécie pode desaparecer em poucos anos.
Tradicionalmente usados na agricultura e no transporte em áreas rurais, os jumentos têm papel fundamental em regiões como o sertão. No entanto, a ausência de políticas de reprodução e a pressão do mercado internacional os coloca em risco. Um estudo da USP de 2021 já previa o colapso, agravado pela falta de regulamentação no abate e condições de maus-tratos durante o processo de exportação.
De acordo com a organização internacional The Donkey Sanctuary, foram abatidos 5,6 milhões de jumentos em 2021 para atender à demanda global por ejiao. Até 2027, esse número pode ultrapassar 6,8 milhões. O Brasil, sem uma cadeia produtiva estruturada, torna-se alvo da exploração, com impactos também na saúde pública e no bem-estar animal, segundo alerta a própria entidade.
A médica-veterinária Patrícia Tatemoto, coordenadora da campanha da ONG no Brasil, destaca que os jumentos são essenciais não só pela função econômica em pequenas propriedades, mas também pelo potencial como animais de companhia, devido à sua docilidade e inteligência. A gestação longa (12 meses) e a maturação lenta (até 3 anos para o abate) tornam inviável uma criação sustentável para atender à indústria.
Diante da crise, alternativas biotecnológicas ganham força. O engenheiro agrônomo e pesquisador da USP Roberto Arruda defende o uso da fermentação de precisão como caminho viável para produzir colágeno sintético, eliminando a necessidade do abate. Países como Quênia, Nigéria e Tanzânia já restringiram ou proibiram a prática.
No Brasil, dois projetos de lei buscam proibir a matança de jumentos para fins comerciais — um em tramitação na Câmara dos Deputados e outro na Assembleia Legislativa da Bahia. Enquanto isso, cresce nas redes a mobilização por políticas públicas de preservação e investimentos em alternativas sustentáveis para frear o que pode ser a extinção de um símbolo cultural e histórico do país.







