Indígenas, movimentos sociais e organizações da sociedade civil lançaram a Caravana da Resposta, uma mobilização que percorrerá mais de 3 mil quilômetros entre Mato Grosso e Belém (PA) até a COP30, conferência climática da ONU marcada para novembro de 2025. O objetivo é denunciar os impactos da monocultura e dos grandes projetos logísticos do agronegócio sobre os povos tradicionais e os biomas da Amazônia e do Cerrado.
Mais de 300 participantes, entre representantes de comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e movimentos populares, seguirão pela chamada “rota da soja”, em um trajeto que combina estrada e rios. Durante o percurso, estão previstas manifestações culturais, atos públicos e rodas de diálogo com comunidades locais.
A etapa final será feita por barco, que funcionará como alojamento coletivo e cozinha solidária em Belém, garantindo a presença dos participantes durante a conferência climática. A ação busca contrapor o modelo de desenvolvimento baseado na exportação de commodities, que — segundo os organizadores — “concentra riqueza, destrói florestas e ameaça modos de vida”.

Corredores logísticos e resistência
A mobilização é organizada pela Aliança Chega de Soja, criada em 2024 e formada por mais de 40 organizações socioambientais. Um dos principais focos da campanha é impedir a construção da Ferrogrão, ferrovia planejada para ligar Sinop (MT) a Itaituba (PA) e escoar a produção de grãos.
Estudos da Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) indicam que o projeto pode causar até 49 mil km² de desmatamento, o equivalente a 30 vezes a área da cidade de São Paulo. Atualmente, a obra está suspensa por decisão liminar do STF, aguardando o retorno do julgamento após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Além da Ferrogrão, a caravana denuncia os projetos de hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, apontados como ameaças aos ecossistemas e aos territórios tradicionais. Os participantes defendem a agroecologia, a pesca artesanal e uma infraestrutura voltada às pessoas — e não ao lucro.
“Querem transformar nossos rios em hidrovias mortas e nossas casas em corredores logísticos. Mas nós vamos defender nossos territórios, porque disso depende o futuro de todo mundo”, afirma a liderança indígena Alessandra Munduruku.
Um outro caminho possível
A Caravana da Resposta também pretende destacar alternativas sustentáveis, com foco em agroecologia, sociobiodiversidade e economia solidária. O percurso de 14 dias seguirá pela BR-163, a “rodovia da soja”, e pelos rios Tapajós e Amazonas, com paradas em Miritituba e Santarém para atividades conjuntas com comunidades locais.
Em Belém, os participantes se juntarão à Cúpula dos Povos e à COP do Povo, eventos paralelos à conferência oficial da ONU, reforçando o protagonismo dos povos da floresta na construção de uma agenda climática justa, inclusiva e anticolonial.







